Contudo, naquelas lâminas gélidas, Paloma conseguiu capturar a sutil e amarga embargadura que estrangulava a voz da mulher despedaçada.
Encarou o semblante de Bruna no mudo martírio da incerteza, os olhos revoltos debatendo-se num dilema excruciante.
Mas a paciência esgotara o reservatório de Bruna há muito tempo.
— Paloma, decida! Se me honra como amiga, me diga a verdade! Se não me considera sua amiga, então, a partir de hoje, não precisamos mais nos ver.
As palavras rasgaram como um punhal.
Todavia, ela sabia que, uma vez que Bruna tomasse uma decisão, nem dez cavalos selvagens a fariam recuar de sua posição.
Um suspiro pálido e doloroso afrouxou os ombros de Paloma.
A guilhotina cairia de qualquer jeito, decepando a essência da amizade idolatrada eternamente. Era preferível lançar luz no palco podre das tramas, dando a Bruna o cenário completo para que pudesse se preparar.
A boca desatou a confissão pesada.
Pelas palavras, revelou-se: Paloma integrava, nas raízes sangrentas e estigmatizadas, os ramos ilegítimos renegados da Família Real do País A; odiada por ser mestiça, sua família sofria um preconceito esmagador dos nobres.
A teia das desgraças emergiu: uma princesa havia articulado um torneio de design com o único objetivo de expurgar a ramificação de Paloma e humilhá-los perante a corte.
Se ela perdesse a competição, toda a sua família sofreria as retaliações impostas pela monarquia.
E por isso, ela precisava que Bruna assumisse o seu lugar e vencesse a disputa.
Bruna escutou atônita, a mente fervilhando em perplexidade: — E por que não me disse isso diretamente?! Somos amigas. Você acha que eu lhe negaria ajuda?
Como orquestrar algo tão terrível envolvendo Bonifácio e a fragilidade amnésica de Uriel para forçá-la a cooperar?
Paloma suspirou, derrotada.
— Você havia jurado abandonar o design. Eu não sabia se você cederia, e o contrato dessa competição é terrível... se falhássemos, o peso das sanções recairia sobre você também. O risco era alto demais...
— Então, movida pelo medo de eu recusar, você compactuou com o Bonifácio para encurralar a mim e ao Uriel?
Paloma murchou, o silêncio sendo sua confissão covarde.
Ela havia admitido.
O gosto amargo da decepção assolou o peito de Bruna, um veneno estilhaçando a confiança que ela havia depositado naqueles laços de amizade.
Apanhou a bolsa, os movimentos distantes, e olhou para Paloma. — Mais tarde eu lhe dou a minha resposta.
Ignorando o almoço intocado, ela deu as costas e partiu.
Congelada no assento, Paloma não disse uma palavra e nem ousou suplicar para que ela ficasse.
Lágrimas escorreram silenciosas por seu rosto, carregadas de uma solidão abismal.
Com o espetáculo encerrado, o burburinho curioso tomou conta do local, as pessoas sussurrando e fofocando sobre o drama alheio.
Bonifácio soltou um longo suspiro e, impotente diante da fúria dela, seguiu-a silenciosamente de longe.
Bruna chamou um táxi.
Durante o trajeto, a amargura invadiu suas entranhas, o peso das revelações sufocando-a aos poucos.
Ela abaixou a janela do carro, permitindo que a friagem do vento secasse a ardência em seus olhos e banisse as lágrimas não derramadas.
Era inimaginável que o grande golpe arquitetado contra sua família tivesse a conivência de Paloma.
O luto e a raiva ferviam, mas a empatia que sempre nutriu pela amiga a fazia entender o desespero de alguém encurralado por uma corte impiedosa.
Contudo, o perdão não era um botão que pudesse ser pressionado tão facilmente.
Ela precisava de tempo para curar as feridas daquela traição.
Em vez de ir para casa, ordenou ao motorista que a levasse à delegacia; ela precisava ver Fernanda Pinto uma última vez.
Mas os oficiais lhe informaram que Fernanda havia sofrido um colapso mental severo e fora transferida para um sanatório.
O choque paralisou Bruna. Como a impiedosa Fernanda havia perdido completamente o juízo?

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