Bonifácio transferiu o foco da sua atenção para Bruna, destilando um cumprimento sorridente e relaxado.
— Srta. Moraes. Faz um tempinho, não é?
As feições de Bruna endureceram-se, transpirando o repúdio latente. — O que diabos você quer por aqui?
— Vim para ser a sua tábua de salvação — devolveu com charme venenoso.
Concluindo a frase irônica, espetou o sorriso macabro em direção à amiga empalidecida de Bruna.
Paloma arremessava chamas silenciosas; porém, a ameaça pífia sequer roçou as muralhas do rapaz insolente.
O desenrolar patético esfregava na cara atônita de Bruna o íntimo tortuoso compartilhado pelos dois desconhecidos em conflito na sua presença perplexa.
Destituída do direito de resguardo dos próprios enigmas sujos, Paloma encarou a inevitabilidade confessando:
— Bruna... Eis o misterioso benfeitor dono do passe de ouro que nos aproximará do Dr. Jesse e assegurará a vida do Uriel.
O ardil era simples: lançar Uriel como escudo e salvador da peleja iminente, amortecendo a cólera tempestuosa da mulher.
Era um jogo sujo de sobrevivência, suplicando o foco direcionado na calamidade neurocirúrgica iminente.
A jogada falhou miseravelmente, ofuscada pela raiva fria que substituiu a expressão assustada de Bruna. Um abismo separava as amigas outrora imbatíveis; ela contemplava uma completa estranha oculta naquela carapaça frágil e covarde!
O terror gelou as entranhas de Paloma perante a adaga invisível dilacerando o seu silêncio culpado.
Ranger as arcadas e fulminar o aliado inconsequente foram suas reações em fúria.
Que diabos o induziu a arrastar todo o teatro infernal para o seu colo?!
Os olhos severos de Bruna contornaram o pavor alheio e esbarraram nas íris sorridentes do crápula manipulador.
— Esse tal "amigo benfeitor"... joga no nosso time ou trabalha nas sombras, apunhalando-nos pelas costas?
A interrogação voou feito um dardo em busca do peito fraturado da garota.
O desespero antecipou-se. — Um aliado de ouro, eu garanto as intenções dele!
Bruna perdera por completo a paciência em suportar adivinhações macabras envolvendo alianças dúbias!
Como ela toleraria um crápula que flertara e compactuara de braços dados com a nefasta Fernanda no jogo infeliz contra o destino fragilizado do marido?
Nas páginas cimentadas da sua cartilha imutável, o homem figurava entre as cobras sem redenção, uma ameaça constante rondando a segurança dos pilares fundamentais de seu coração e família.
Contudo, o plot impensável se revelava de modo estarrecedor: o parasita e a guerreira intocável flertavam nos bastidores dessa patifaria descabida!
O raciocínio aterrorizante eclodiu em fagulhas: o envolvimento na cilada planejada possuía ou não a cumplicidade oculta de Paloma no conluio traidor contra o amnésico indefeso da época?
Caso houvesse anuência dela em um só plano contra os Bragas...
A quebra e o estilhaço da devoção leal da década explodiria no escuro pálido das recordações soterradas, varrendo com brutalidade os escombros fumegantes e inviabilizando qualquer migalha da comunhão sagrada entre o afeto imutável no futuro das duas amigas que se acolhiam num só coração inseparável!
Requeriam destrinchar farpas, sangramentos e expurgos limpos para a sobrevivência em luto e resgate amargurado!
Selando a oferta com uma inclinação altiva de ombros relaxados, o homem sumiu em dissolução nos contornos ensolarados dissipando tensões.
Após a saída de Bonifácio...
Bruna e Paloma permaneceram frente a frente, imersas em um silêncio sufocante.
Nenhuma das duas tocou no cardápio. Paloma lançou um olhar trêmulo e angustiado para a amiga, incapaz de suportar a quietude opressiva.
— Bruna... O plano do Bonifácio contra o Uriel... eu sabia. Sinto muito.
As palavras eram carregadas de um arrependimento excruciante.
Bruna encarou-a friamente. — Por quê?
Paloma abaixou a cabeça, incapaz de formular uma defesa que não soasse patética diante do horror de sua omissão.
A imutabilidade esculpida no rosto de Bruna era aterrorizante.
— Paloma, sei o quanto você preza sua privacidade. Respeitei seus segredos na Cidade Sul, nunca exigi saber do seu passado ou entrar na sua casa quando você claramente queria manter distância. Eu compreendi seus fantasmas.
— Mas isso envolve a segurança do Uriel. Não posso simplesmente ouvir suas desculpas e aceitar o favor de alguém que orquestrou a destruição dele sem obter as respostas completas. Então, me diga a verdade.
O tom empregado por ela era implacável, frio e vazio de qualquer traço da empatia que as unira outrora.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Meu Amor, Meu Traidor