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Meu Amor, Meu Traidor romance Capítulo 746

A voz esganiçada e cheia de marra pertencia, inconfundivelmente, a uma criança. E era assustadoramente familiar.

Girando sobre os calcanhares, Bruna deparou-se com o pequeno Heitor Lemos, braços cruzados como um déspota em miniatura, fuzilando a figura adulta à sua frente.

A mulher não lhe era estranha.

Tratava-se da Profa. Ondina, a mentora particular do garoto.

Até semanas atrás, o moleque adorava a companhia da educadora. O que justificava aquela transformação drástica de afeto para aversão?

Bruna estalou a língua; não tinha intenção alguma de envolver-se no drama alheio.

Porém, Heitor já a havia detectado no radar.

Os sapatinhos caros bateram com pressa no piso polido, e logo ele barrou a passagem dela.

— Mamãe! Você também veio fazer compras?

O rosto emburrado do menino suavizou de forma mágica. Em vez do desgosto despejado sobre Ondina, ele transbordava uma genuína alegria, cravando nela os olhinhos pidões.

Bruna abaixou os olhos para a criatura arrogante de cabelos escuros.

Naquele instante, algo invisível e agudo espetou o seu coração.

Por essa exata razão, seus pés não a levaram para longe de imediato.

Incontáveis foram as vezes em que ela ordenara que ele cessasse a intimidade daquele tratamento. O teimoso teimava em desobedecê-la.

Pior ainda: desde que Heitor lhe pedira um perdão choroso, a devoção do pirralho parecia apenas aumentar exponencialmente.

Apesar de ela lhe ofertar sempre muralhas de gelo, ele aparentemente tomara consciência do próprio passado cruel e, disposto a reverter a situação, engolia a frieza ostentando aquele sorriso reluzente de "mamãe".

Nenhuma couraça, por mais densa que fosse, sustentaria insultos lançados ao rosto sorridente de uma criança arrependida.

Em resposta, emitiu apenas um múrmurio seco, retomando a marcha com Paloma.

O moleque sequer se ofendeu com a resposta ríspida.

Ajustou a alça da mochila nas costas diminutas e disparou atrás das pernas das duas mulheres, feito um filhote perdido.

Despejou um conhecimento cavalheiro, claramente pescando clichês de alguma novela.

— Mamãe, quando damas elegantes saem para bater perna, precisam de um cavalheiro para carregar os pertences pesados. Deixe que eu assuma esse papel de guarda-costas.

Avançou na direção da bolsa de couro grifada, pronto para cumprir a promessa audaciosa.

Com um solavanco rápido, Bruna esquivou o acessório do agarre alheio.

A humilhação pintou as bochechas de Ondina com as cores da vergonha.

A sobrevivência financeira atava suas mãos à família Lemos. Sabendo que o pupilo percorreria os corredores caros, elaborara aquela arapuca com a intenção desesperada de angariar compaixão e reaver seu emprego.

Infelizmente, todas as adulações e brinquedos bajuladores serviram apenas para azedar o humor indomável da criança.

E eis que a mãe de sangue ralo, detentora do título de relapsa crônica, surgiu feito uma deusa suprema usurpando as atenções, anulando os esforços da pedagoga.

O poder repulsivo daquele laço familiar seria tão inquebrável a ponto de esmagar a lógica?

Engolindo o fel amargo do despeito, Ondina aproximou-se cautelosamente da ex-patroa.

— Srta. Moraes. Gostaria de registrar meus sinceros pedidos de perdão pelas falácias precipitadas lançadas a seu respeito por causa daquele terrível equívoco.

O tom empregado esbanjou contrição, orquestrado perfeitamente para soar arrependido.

Contudo, nada escaparia à análise de Bruna; a piscadela irônica e peçonhenta que lhe cruzou o semblante fora desvendada com exatidão.

Um ressentimento fútil como aquele não merecia trinta segundos do seu precioso tempo.

Com um aceno raso de reconhecimento, focou novamente os olhos céticos na criatura barulhenta aos seus pés.

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