— Onde mora a família Goulart? — perguntou Laura Rocha de maneira casual.
Mário Goulart sorriu levemente.
— Moramos aqui perto da empresa, só cinco estações de metrô. Levo menos de meia hora pra chegar.
— Ah, é mesmo? — Laura assentiu com a cabeça. — Então é bem perto.
Agora, Laura tinha certeza: Mário Goulart não era um privilegiado com algum contato influente.
Afinal, ninguém com “padrinho” viria trabalhar de metrô.
Logo, o elevador chegou ao térreo.
Laura quis pegar as sacolas de compras das mãos dele.
— Me dá, por favor. Meu familiar já está vindo me buscar.
Ela quase disse que era o motorista da família, mas preferiu mudar para “familiar”. Achou melhor não parecer tão ostensiva na frente do novo colega.
— Não se preocupe, Dra. Laura, eu posso te ajudar a levar até o carro — respondeu Mário, solícito.
Laura percebeu que o rapaz parecia não se cansar nunca. Era tão prestativo que ela até se sentiu um pouco constrangida.
— Meu carro está ali. Me dá que eu levo.
Mário olhou rapidamente para trás dela.
— Tudo bem, Dra. Laura. Até amanhã, Dra. Laura.
Laura sorriu de volta, educada.
— Até amanhã.
Mas, ao abrir a porta do carro e ver o homem de semblante fechado no banco de trás, sentiu um aperto no peito, sem motivo aparente.
— Amor, o que faz aqui? — perguntou, tentando soar natural.
— E aquele cara agora há pouco, quem era? — O tom dele era ácido.
Pronto, alguém estava com ciúmes.
Laura resolveu provocá-lo.
— Ah, só um rapaz simpático que encontrei no elevador. Insistiu em me ajudar com as sacolas. Nem sei de que setor é, nunca tinha reparado.
— Nem pense nisso! — Samuel Serra, com um movimento rápido, puxou-a para o colo. — Não quero saber! Aquele quatro-olhos magricela, qual é a graça? Mais bonito que teu marido?
Como assim, agora ele inventava apelidos?
— Quando você vivia tentando me conquistar, também não usava óculos? — Laura passou os braços pelo pescoço dele, sussurrando ao ouvido. — Ah, já sei… você usava de propósito, né?
Ela se lembrou: Samuel nem era míope, mas vivia “esquecendo” os óculos.



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