Na véspera do dia em que partiria, Samuel Serra quis beber.
Beber sozinho era amargo demais, então chamou Josué Rodrigues, que sofria as mesmas angústias.
— Nosso grande senhor Samuel, me diz, onde foi que eu errei? Por que ela não quis nada comigo?
Samuel Serra lançou-lhe um olhar de lado, rindo friamente por dentro.
Se até ele não era correspondido, Josué Rodrigues também não ser, era a coisa mais normal do mundo.
— E você, gosta de quem?
Samuel Serra perguntou, curioso.
Josué Rodrigues lançou um olhar rápido para o tio de alguém, mas essas coisas não se dizem.
— E você, nosso grande senhor Samuel, também sofre por amor?
Samuel Serra apenas se serviu de mais uma dose.
Cada um tinha seus próprios tormentos e preocupações.
Mas naquele momento, o único objetivo em comum era se embriagar.
Josué Rodrigues foi o primeiro a cair, sendo levado de volta ao apartamento pelo motorista.
Meio grogue, murmurava o nome de Yaya, mas ninguém ouviu a solidão do seu coração.
-
Yasmin Serra e Josué Rodrigues foram rivais desde pequenos.
Ela nunca entendeu por que aquele homem era tão implicante.
Mesmo sendo mais velho, nunca lhe dava passagem.
Quando crianças, brigavam pelos brinquedos; depois de maiores, ele adorava pregar peças nela.
Por isso, desde que se lembrava, Josué Rodrigues liderava sua lista de desafetos.
Até o dia em que sua mãe voltou para casa, desolada.
— Yaya, seu pai sofreu um acidente de carro e faleceu.
O mundo de Yasmin Serra desabou.
Ainda esperava que o pai trouxesse a boneca nova que prometera… Tinham se falado ao telefone no dia anterior, como podia ele ter partido assim?
No velório, foi a única vez que Josué Rodrigues não a atormentou.
Vestida de preto, ela se encolheu num canto, chorando escondida da mãe.
Mas acabou sendo encontrada.
— Ei, pequena Yasmin.
Ela não respondeu, apenas os ombros tremiam em soluços abafados, o que fez o jovem Josué Rodrigues sentir uma pontada de compaixão.



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