Samuel Serra assumiu oficialmente os negócios do grupo da família aos vinte e três anos.
Na verdade, ele começara a se envolver desde os dezesseis, e aos dezoito já havia aumentado em vinte por cento o lucro trimestral da empresa.
Depois, foi estudar no exterior, onde fundou a filial internacional do grupo, dividindo-se entre os estudos e a construção de seu império empresarial.
Samuel parecia uma máquina precisa, capaz de operar vinte e quatro horas sem parar.
Não demonstrava emoções em excesso, tampouco tinha hobbies especiais.
Era como se tivesse nascido apenas para ganhar dinheiro.
Aos vinte e três anos, Samuel Serra retornou ao Brasil.
Sabia que o pai planejava lhe entregar o comando dos negócios no país.
Chegou um dia antes do previsto e, coincidentemente, seu irmão mais velho acompanhava o pai em uma visita a outras filiais.
Alguns primos estavam em casa, mas, achando o ambiente barulhento, Samuel pediu que não avisassem ninguém de sua chegada.
Seu quarto ficava no terceiro andar, onde ninguém o incomodaria.
Samuel Serra acabara de sair do banho quando ouviu, ao longe, uma batida discreta na porta.
Ergueu as sobrancelhas sem pensar muito, apanhou uma toalha e a enrolou no corpo de qualquer jeito, antes de abrir a porta.
Do outro lado, uma garota de rabo de cavalo alto parecia querer se enterrar no chão de tanta timidez.
Era ela?
Laura Rocha, a filha mais velha da família Rocha.
Os olhos claros de Samuel fixaram-se despreocupados na pele iluminada que aparecia na nuca da garota, piscando por um instante.
Os fios claros e desordenados do cabelo dela davam um toque de irreverência à cena.
Samuel sentiu o coração bater forte, sem entender o motivo.
Observou quando as orelhas rosadas da jovem, unidas ao pescoço alvo, ficaram ainda mais vermelhas.
A garota parecia reunir toda a coragem do mundo para dizer:
— Tiago Serra, eu gosto de você.
Os olhos de Samuel escureceram um pouco. Então era o sobrinho que ela procurava.
Engoliu em seco, tentando reprimir a sensação estranha que lhe acometia, e respondeu em tom calmo:
— Você entrou no quarto errado. O quarto do Tiago é no andar de baixo.
Confundir quem receberia a declaração devia ser, para uma menina de dezesseis anos, uma tragédia.
Samuel esforçou-se para soar gentil:
— Laura, ele está lá embaixo.
Mas, por mais suave que fosse sua voz, captou nos olhos amendoados da garota o medo, seguido de frustração, decepção e, por fim, lágrimas de mágoa.
Ela nem ousou olhá-lo novamente. Murmurou um pedido de desculpas e desceu as escadas apressada, quase tropeçando.
Samuel, por um instante, pensou em ir atrás dela, mas logo concluiu que provavelmente ela não queria vê-lo naquele momento, então desistiu.
Permaneceu alguns instantes parado ao lado da cama, observando o vulto apressado da jovem sumindo pelo corredor, pensativo.
Ouviu passos atrás de si.

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