Samuel Serra nem sabia ao certo o que se passava em sua cabeça.
De vez em quando, ele flagrava Tiago Serra e Luara Ribeiro numa intimidade entre irmãos que, para ele, parecia passar dos limites do habitual.
Ainda assim, ao ouvir o pai comentar que o compromisso entre as duas famílias seria oficializado quando ambos completassem dezoito anos, sentiu uma vontade enorme de se manifestar e impedir aquilo.
No entanto, uma voz em seu íntimo o alertava: e se a garota estivesse ansiosa por esse noivado? E se, ao impedi-lo, ele destruísse o sonho de uma jovem?
Aos vinte e quatro anos, Samuel falava cada vez menos.
— Samuel, não imaginei que em apenas dois anos de volta ao país, até aqueles tradicionalistas da empresa já estão do seu lado.
Samuel sabia que o pai guardava algumas reservas quanto a isso, mas precisava primeiro convencer o irmão a alinhar-se com ele.
— Natan, eu não nego que eles já batalharam ao lado do nosso pai e até têm seus méritos. Mas você sabe quantos apadrinhados eles colocaram lá dentro?
— Se todos os cargos do grupo forem ocupados por esses apadrinhados, a falência é só uma questão de tempo.
Natan Serra confiava cem por cento naquele irmão prodígio.
— Eu sei. Se o pai reclamar de você, eu falo por você.
Samuel esboçou um sorriso contido.
— Obrigado, Natan.
— Ora essa, entre irmãos não há por que agradecer.
— Mas, mano, tem uma coisa que eu preciso te alertar.
Natan estranhou.
— Diga.
— Aquela noite, vi o Tiago saindo do quarto da Luara. Sei que são irmãos, mas não de sangue. Talvez o Tiago devesse tomar certos cuidados para evitar mal-entendidos.
Natan achou graça.
— Ah, isso... Naquela noite, a Luara estava com dor de barriga. O Tiago deve ter ido lá acalmá-la para dormir. Você sabe, ela é frágil, sensível... Basta ela chorar um pouco que o Tiago já fica todo preocupado.
Samuel ergueu as sobrancelhas, mas não insistiu.
— Certo, mano, vou sair agora.
–
— Ei, Luara, não fica triste. Se eles não quiserem te levar pra viajar, a gente vai escondido, que tal?
— Tudo bem. Se não estiver feliz, vem ficar comigo. Meu avô gosta tanto de você! Se você vier passar uns dias, ele não vai reclamar, tenho certeza.
Samuel parou ao ouvir a conversa, estreitando os olhos.
Às vezes, sentia-se um verdadeiro estranho, por ter conseguido o contato da garota, fingindo ser um desconhecido e tornando-se seu parceiro em aventuras virtuais.
Naquela noite, Samuel fumou sem parar, incapaz de dormir.
Repetia para si mesmo: “Ela é a futura noiva do seu sobrinho.”

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