Antes dos três anos, Laura Rocha achava seus dois filhos simplesmente adoráveis.
Depois dos três, a travessura dos pequenos parecia não ter fim.
— Mamãe, o irmão pegou meu brinquedo.
— Mamãe, a irmã já tem um!
Laura Rocha só queria que alguém confiscasse seus ouvidos. O chamado constante de “mamãe” já a deixava atordoada.
O marido chegou em casa, impecável em seu terno.
— O que houve?
Laura acenou, chamando-o:
— Vem logo, está na hora do tribunal! Só falta você, juiz Serra.
Samuel Serra arqueou levemente as sobrancelhas e lançou primeiro um olhar atravessado para o filho.
Bolo encolheu o pescoço e fez um biquinho.
Ele sabia muito bem que o pai sempre favorecia a irmã, mesmo disfarçando.
Nana sorriu com os olhos semicerrados:
— Papai, você voltou! Estava com tanta saudade de você!
Samuel Serra afagou os cabelos da filha.
— Brigou com seu irmão de novo?
Nana fez beicinho.
— Não foi nada disso.
— Papai, o Bolo é muito egoísta, nunca vai arrumar uma namorada assim.
Aos três anos, ela nem sabia direito o que era uma namorada, mas papai sempre chamava mamãe assim.
Bolo bufou, inflando as bochechas, e virou o rosto.
Laura Rocha resumiu de forma concisa:
— A irmã quis brincar com o brinquedo do irmão, mas ele não quis dividir.
— Mamãe, não peguei à força!
— Mamãe, não sou egoísta assim!
Samuel Serra sentou-se entre as duas crianças.
— Nana, que tal trocar seu brinquedo favorito com o do seu irmão?
Os dois pequenos hesitaram, meio contrariados, mas acabaram concordando.
No instante seguinte, estavam de novo rindo juntos, como se nada tivesse acontecido.
Laura Rocha massageou as têmporas.
— Ainda bem que você chegou a tempo. Esses dois não dão trégua.
Samuel Serra se aproximou e começou a massagear suavemente suas têmporas, sorrindo de leve.
— É normal. Criança briga mesmo, mas com os outros são uma dupla inseparável.
Enquanto ele a massageava, Laura sentiu um arrepio, como se uma corrente elétrica lhe percorresse a pele.
Ela se afastou, desconfiada.
— O que está fazendo? As crianças ainda estão aqui.
Samuel Serra sorriu enigmaticamente.
— E o que você acha que eu vou fazer?


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