Todas as vezes que beijava Samuel Serra, no dia seguinte, Laura Rocha se sentia um tanto desconfortável.
Embora já tivessem um relacionamento em que beijos fossem naturais, no coração dela Samuel Serra ainda ocupava um pedestal inalcançável.
Mesmo que a distância entre eles fosse tão curta a ponto de compartilharem o mesmo registro civil.
Laura Rocha se arrumou cuidadosamente, pegou a bolsa e se preparou para sair.
— Senhora, bom dia, o senhor já está esperando a senhora no restaurante — lembrou Fábio Silva, o mordomo, com voz suave.
Laura Rocha parou por um instante. Ele já tinha acordado tão cedo?
Eram apenas sete horas da manhã, e ela havia saído mais cedo justamente para evitar encontrá-lo.
— ...Está bem. — Laura Rocha desceu as escadas com certa relutância, apenas para ver o homem sentado tranquilamente no restaurante, erguendo para ela seus olhos frios e serenos.
Com uma voz aveludada e levemente rouca, ele saudou:
— Bom dia.
— Bom dia.
Laura Rocha comia pequenas porções de pastel, e para aliviar o constrangimento, puxou conversa:
— Hoje você acordou cedo, não foi?
— Sempre acordo às sete, faço exercícios por uma hora. Hoje, para evitar que alguém tentasse me evitar, decidi não correr de manhã.
Alguém? Podia muito bem dizer o nome dela direto!
Laura Rocha engasgou com a água, tossindo com força, o rosto todo corado.
O lobo de Samuel Serra se aproximou, trouxe um copo d’água com uma mão e, com a outra, entregou-lhe um guardanapo com gentileza. Havia um leve sorriso em sua voz:
— Cuidado, vá devagar. Ainda é cedo.
Laura Rocha pegou o copo e bebeu aos poucos, e depois de se acalmar, lançou-lhe um olhar de reprovação.
Como ele tinha coragem de falar aquilo? Ela só se engasgou por causa do que ele disse!
Desviando o olhar, murmurou baixinho:
— Nem estava tentando evitar...
Sem vontade de prolongar o papo constrangedor, Laura Rocha limpou a boca, levantou-se:
— Já terminei, vou trabalhar. Aproveite o café!
Havia um tom manhoso em sua voz, sem que ela percebesse, como se reclamasse da provocação do homem.
Quando Laura Rocha chegou ao hall de entrada, foi puxada de repente para um abraço forte e caloroso.
Samuel Serra segurou sua cintura, puxando-a para perto, e seus rostos ficaram tão próximos que bastava ele inclinar-se para tocar o nariz delicado dela.
— Ainda não estou satisfeito.
Laura Rocha tentou se esquivar:
— Se não está satisfeito, volte para comer...
A sombra dele a envolveu, calando suas palavras ao encontrar seus lábios num beijo profundo.
A última palavra dela se perdeu no gesto dele.
O beijo intenso fez com que Laura Rocha perdesse completamente as forças, derretendo-se nos braços quentes dele.
Samuel Serra soltou-lhe os lábios satisfeito, acariciando com o polegar a boca vermelha e inchada dela:
— Agora estou satisfeito.
— Vá trabalhar, e tome cuidado no caminho.
— Então eles ainda dormem separados?
Fábio Silva coçou o nariz:
— Senhor, o doutor Samuel está esperando o casamento. Depois da cerimônia eles vão para o quarto principal.
— Humpf! Que cavalheiro!
O vovô Serra resmungou ainda mais:
— Quem não sabe que ele é um lobo disfarçado?
Se fosse mesmo um cavalheiro, não teria cobiçado a noiva do próprio sobrinho!
— Fábio Silva, você está há muitos anos nesta casa, desde que Samuel era pequeno. De vez em quando, lembre-o dessas coisas.
— Já tem trinta e três anos, está na hora de ter um filho.
— Casamento e filhos não se excluem, não é?
— Ah, deixa pra lá, falar com você é perder tempo. Eu mesmo vou falar com ele!
Dizendo isso, o vovô Serra saiu da casa, aborrecido.
Fábio Silva o acompanhou até o carro com respeito, pensando: Será que o senhor está preocupado com a fertilidade do doutor?
–
Samuel Serra nem imaginava que estava sendo alvo dessas suspeitas.
Observava o anel recém-chegado naquela manhã, que brilhava intensamente, e sentia-se satisfeito.
— Kauan Cardoso, cancele todos os compromissos sociais desta noite. Depois das cinco, não quero receber ligações de ninguém. Inclusive de você.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Espelhos Quebrados Não se Reconstroem