A mulher na cama não parava de ter pesadelos, chutando as cobertas para longe a todo momento. Suas mãos se agitavam no ar, como se tentasse desesperadamente afastar algo invisível.
O homem que velava seu sono ao lado da cama não tinha outra escolha a não ser levantar-se repetidas vezes para cobri-la novamente.
Desta vez, no entanto, ela agarrou a camisa dele com força, os nós dos dedos ficando brancos.
— Mãe... para onde você está indo? — ela murmurou durante o sono.
Afonso franziu o cenho, uma pontada de dor genuína atravessando seu peito. Ele gentilmente soltou a mão dela, envolvendo-a na sua. Tirou os sapatos e recostou-se na beirada da cama, dando leves tapinhas por cima do edredom, em um ritmo constante e reconfortante.
Aos poucos, a respiração antes ofegante de Naiara foi se acalmando.
Durma. Durma bem.
Já passava da metade da madrugada quando Naiara finalmente abriu os olhos.
Ao se deparar com o quarto de conto de fadas, a lembrança da perda consecutiva de seus entes queridos voltou como uma marreta. O peito apertou tanto que até respirar se tornou uma tarefa dolorosa.
Sua mão estava sendo segurada por outra, grande e quente.
Era ele.
Afonso havia adormecido sentado, recostado contra a cabeceira da cama.
Ele deveria estar exausto. Afinal, há quanto tempo estava mantendo aquela mesma posição desconfortável? O quão cansativo aquilo devia ser...
Aqueles problemas não tinham nada a ver com ele, mas de alguma forma, ele sempre acabava sendo arrastado para o meio do caos.
Naiara, ah, Naiara... Será que você é mesmo um ímã de desastres, como Karina costumava dizer? Quem quer que se aproximasse dela, acabava perdendo a própria paz.
Naiara estendeu a mão livre, com a intenção de alisar a ruga de preocupação entre as sobrancelhas dele. Mas, no último segundo, recuou. Em seguida, tentou puxar devagar a mão que ele segurava.
Por mais sutis que fossem seus movimentos, foram o suficiente para despertá-lo.
Afonso abriu os olhos. Por ter ficado na mesma posição por tanto tempo, suas costas e cintura doíam. Ele franziu a testa ao se mover, e quando falou, sua voz era baixa e levemente rouca, carregando um magnetismo indescritível.
— Por que acordou? Teve outro pesadelo?
Naiara abriu a boca para responder, mas a garganta ardeu.
Afonso pegou a garrafa térmica que havia deixado preparada na mesa de cabeceira.
— Água com mel. Não está muito doce, vai ajudar a aliviar a garganta.
Naiara sentou-se devagar e deu dois goles. O alívio foi quase imediato. O sabor era suave, o dulçor na medida exata.
— Obrigada — ela disse, a voz fria e contida, como era do seu feitio.
Afonso ajeitou as cobertas ao redor dos ombros dela.
— Volte a dormir um pouco. Ainda é cedo.
Afonso parou por um instante, a expressão endurecendo levemente.
— Por que está dizendo isso de repente? Eu fiz algo de errado que te deixou desconfortável?
O coração de Naiara doeu.
Essa era sempre a atitude de Afonso em relação a ela. Ele sempre seria o primeiro a refletir, a questionar se havia errado em algo. Aquilo lhe causava um desconforto sufocante.
As lágrimas que ela vinha segurando ameaçaram cair.
— Não. É que eu tenho medo... de acabar te arrastando para o fundo comigo.
— Me arrastando para o quê?
— Veja bem... — Naiara respirou fundo, tentando conter a dor aguda que irradiava de cada poro do seu corpo. — Meu pai adotivo partiu por minha causa... Minha mãe biológica também se foi, por minha causa... Todos que ficam perto de mim sofrem. A Karina sempre dizia que eu era amaldiçoada...
Um dedo longo e quente pressionou levemente seus lábios, interrompendo a torrente de palavras.
— Shh. Escute o que eu vou te dizer.
A voz dele soou suave e aveludada, ressoando em seus ouvidos com uma clareza absoluta.
— Não existe isso de ser amaldiçoada. Você é uma mulher culta, com um intelecto afiado e lúcido. Não deveria dar ouvidos ao absurdo de pessoas ignorantes.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Emprestar o Meu Marido pra Ter um Bebê
Como consigo os capítulos completos?...
como consigo ler todos os capitulos...