Naquela época, todos os amigos em comum a invejavam, dizendo que ela era impecável até no último fio de cabelo.
No entanto, após a morte dos gêmeos, toda a beleza daquela vida foi despedaçada.
Com os dedos trêmulos tocando as bochechas encovadas, Ofélia se agachou, abraçou o próprio corpo frágil e não conseguiu mais conter o choro compulsivo...
Durante a noite, Ofélia teve uma febre alta repentina e, em seus sonhos, viu seus filhos novamente.
Os gêmeos, que estavam a apenas uma semana de nascer, haviam morrido no ventre devido a um sequestro.
No sonho de Ofélia, eles cresceram pouco a pouco até completarem cinco anos.
O menino era muito parecido com Thiago, e a menina se parecia mais com ela.
— Mamãe, você tem que ser forte e melhorar! Ainda estamos esperando para ser seus filhos de novo! — disseram as duas crianças para ela no sonho.
Quando Ofélia acordou novamente, percebeu que estava no hospital. A governanta da casa, Sra. Manuela, havia notado que ela estava doente e a levara para lá.
Após adoecer gravemente e passar uma semana internada, Thiago não apareceu em momento algum.
Ofélia lembrou-se do pedido que seus filhos lhe fizeram no sonho.
Ela foi ao cemitério mais uma vez para uma última despedida dos gêmeos.
Durante a quinzena seguinte, Thiago não tomou a iniciativa de contatá-la e mal voltou para casa.
Ele atendia as ligações de Ofélia apenas uma vez por dia, e as respostas eram sempre poucas e frias, limitando-se a dizer que estava ocupado e que não voltaria agora.
Ela sabia que Thiago a estava evitando de propósito.
Mas ela não causou mais escândalos, parou de tomar os remédios para dormir e seguiu as recomendações médicas, começando a praticar ioga para recuperar a saúde.
Ela esvaziou o quarto das crianças, queimou os exames de ultrassom dos gêmeos e nunca mais mencionou o assunto.
As mudanças físicas decorrentes dos exercícios e dos cuidados tornaram-se cada vez mais evidentes, os sintomas de anorexia de Ofélia diminuíram e seu peso aumentou gradualmente.
Thiago percebeu a determinação dela em mudar e, pessoalmente, levou-a a um médico experiente para cuidar de seu bem-estar.
Após dois meses de tratamento, Ofélia chegou aos quarenta e cinco quilos, e a desolação em seus olhos começou a se dissipar, embora ainda parecesse magra e pálida, isso já era um enorme progresso.
No instante seguinte, a ligação foi atendida e a voz familiar do homem ecoou:
— Estou ocupado. Seja lá o que for, conversamos quando eu voltar.
A voz chegou aos ouvidos de Ofélia simultaneamente pelo celular e vinda da esquina do corredor logo atrás dela.
O tom do homem foi frio e, sem dar a Ofélia a chance de dizer mais nada, ele encerrou a chamada.
Ofélia ficou imóvel onde estava.
A atitude fria e negligente do homem a deixou desnorteada, como se a harmonia e a doçura dos últimos três meses não tivessem passado de um sonho.
— Abel, o papai vai levar você para tomar injeção primeiro, tudo bem?
A voz familiar do homem continuava vindo de trás da esquina do corredor. O tom era suave, nada parecido com a frieza de instantes atrás ao telefone.
Ofélia apertou o celular com força e se virou, movendo-se com rigidez, dando passos lentos em direção à esquina.
Seu marido, que deveria estar viajando a trabalho no exterior, estava sentado de costas para ela nas cadeiras de espera, segurando no colo um garotinho que usava um adesivo antitérmico na testa...

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