Aeliana devolveu um sorriso que parecia ter ficado perdido no tempo.
— Nem eu.
Santiago era um dos poucos amigos de infância de Aeliana, e dona Valentina tinha sido muito boa com ela. Rever alguém daquele período mexia com lembranças que ela quase nunca tocava.
Depois das saudações, veio o que precisava ser feito.
Ali mesmo na calçada, Santiago anotou as informações do ocorrido, guardou o bloco e voltou a encarar Aeliana. O sol do fim de tarde recortava a silhueta dela, esguia, mas firme.
Ele não pôde deixar de pensar que Aeliana tinha mudado e, ao mesmo tempo, não.
Quando criança, ela parecia pequena e frágil, mas carregava feixes de lenha maiores do que ela sem reclamar.
— Você mora por aqui agora? — perguntou.
Aeliana assentiu.
— Moro nessa região já tem um tempo.
Santiago tirou um cartão do bolso e estendeu a ela.
— Eu trabalho na Polícia Civil, na área de homicídios. Se precisar de alguma coisa, me procura.
Aeliana pegou o cartão. A ponta dos dedos roçou de leve a palma da mão dele, quente.
Ela baixou os olhos e leu.
"Santiago Laginha — Delegado adjunto / Divisão de Homicídios."
Aeliana ergueu as sobrancelhas.
— Você foi longe, hein?
Santiago riu baixo:
— É o meu trabalho.
Perto da viatura, alguém o chamou com urgência. Ele olhou para trás, relutante.
— Preciso voltar pra ocorrência.
Ele deu um último olhar para Aeliana, como se ainda tivesse muita coisa para perguntar, mas engoliu as palavras.
— A gente se fala.
Aeliana assentiu.
— Se cuida.
Santiago hesitou por um segundo, mas falou.
— Qualquer dia... vamos jantar?
Aeliana sorriu.
Heloisa também sorriu com ternura.
— Você ficou tanto tempo deitada naquele hospital. Agora que saiu, precisa se recuperar bem.
Aeliana sentiu-se um pouco impotente, mas uma onda de calor invadiu seu coração.
A impotência vinha do fato de que aquele era o terceiro banquete que comia desde que saíra do hospital.
Primeiro foi a comida feita pelo próprio Jocelino, depois o encontro com o grupo de amigas da Aline, e agora mais essa refeição...
Ela não resistiu e sussurrou para Jocelino, que estava ao seu lado.
— Se eu continuar comendo assim, vou engordar uns dois quilos.
Jocelino riu baixo e apertou suavemente a palma da mão dela.
— Não tem problema, é bom engordar um pouco.
— Fica mais confortável de abraçar.
O peso de Aeliana ainda estava abaixo do ideal; em alguns lugares, ao tocá-la, sentia-se os ossos.
Quem fala não tem maldade, mas quem ouve, interpreta.
Jocelino disse aquilo sem segundas intenções, mas como a imagem dele andava meio indecente na mente de Aeliana ultimamente, ela naturalmente entendeu errado.

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