— Ela me disse muitas coisas.
Rodrigo resumiu toda a conversa que tivera com Daniela naquele dia.
Enquanto escutava, o rosto de Felipe foi perdendo a cor e seus olhos se encheram de descrença.
Daniela...
Aquela mãe em sua memória, sempre autoritária, fútil e frequentemente cega para a verdade e o erro, estava realmente pedindo desculpas?
E pedindo desculpas para o irmão mais velho?
— Ela também... mencionou o Henrique.
A voz de Rodrigo soou mais baixa. O nome agiu como uma chave e destrancou de imediato a caixa de Pandora, desenterrando os segredos que os dois irmãos deliberadamente evadiram, escancarando a ferida exposta entre eles.
A morte de Henrique era a barreira irredutível na família Oliveira; qualquer alusão a ele instigava um silêncio brutal.
Ao ouvir o nome, Felipe apertou brutalmente os punhos até empalidecer as articulações.
— Rodrigo...
— Me perdoe... me perdoe...
— Eu perdi o juízo, fui eu quem causou a morte do Henrique...
Os olhos de Felipe perderam o foco e as lágrimas rolaram violentamente, despencando sem aviso, enquanto ele escondeu o rosto nas palmas das mãos, tremendo e encolhendo o corpo.
Durante os dias enclausurado na clínica, o fantasma do irmão caçula o visitava com demasiada frequência em seus pesadelos.
Eram construções insanas, vezes vívidas, vezes distorcidas, transformadas numa teia sufocante.
Em seus sonhos, recordava a época em que ainda eram crianças inocentes correndo no jardim da antiga mansão Oliveira. Henrique tinha uma saúde delicada desde berço e não possuía velocidade alguma, facilitando sempre para Felipe o alcançar e ambos despencarem na grama fofa, abraçados e rindo.


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