A voz de Fabíola soou do outro lado da linha, parecendo já ter controlado suas emoções. Havia um tom daquela leveza que ela costumava ter, como se a discussão da noite anterior nunca tivesse ocorrido.
— O que foi? Acha que estou atrapalhando seu sono de beleza ou não gostou de receber a minha ligação?
Jocelino segurava o telefone, mas seu olhar desviou involuntariamente para o quarto.
Ele rapidamente trouxe seus pensamentos de volta e adotou um tom polido de homem de negócios:
— Imagina, Sra. Saramago. Eu não poderia pedir por nada melhor do que uma ligação sua.
— Acontece que, infelizmente, minha esposa não dormiu bem ontem e está com a saúde um pouco debilitada. Estava pensando em chamar um médico particular para dar uma olhada e também preciso fazer companhia a ela.
— Em que posso ajudá-la?
Fabíola ficou em silêncio por um instante. Quando voltou a falar, o charme na voz havia diminuído, dando lugar a um toque de sarcasmo.
— O Sr. Porto é realmente um marido exemplar, sempre colocando a esposa em primeiro lugar. Dá até inveja.
Ela mudou sutilmente de assunto, com um tom de investigação camuflada.
— Mas, mudando de assunto, eu tenho algo aqui que talvez possa ser útil ao Sr. Porto.
— A sua chegada à Vila das Nuvens Cinzentas junto com a sua esposa causou um grande alvoroço. Mas, considerando o seu patrimônio e a sua visão para os negócios, não me parece que vocês vieram apenas para curtir a paisagem, não é?
O olhar de Jocelino escureceu, enquanto as pontas de seus dedos tamborilavam silenciosamente na mesa de mogno.
— Oh? O que a Sra. Saramago quer dizer com isso?
— Não precisamos de meias palavras entre pessoas esclarecidas. — Fabíola deu uma risada leve. — No sul... recentemente houve uma grande escassez de certas mercadorias. É difícil conseguir até mesmo um navio, certo?
A voz de Fabíola ganhou um tom intrigante.
— Por coincidência, as figuras-chave que controlam esses canais de distribuição têm certa amizade com a minha família. Se o Sr. Porto tiver um tempo, o que acha de tomarmos um café da manhã para conversarmos melhor?
Ela fez uma pausa, insinuando algo:
— Ouvi dizer que os negócios do Sr. Porto no país A têm enfrentado alguns pequenos gargalos recentemente. A Vila das Nuvens Cinzentas pode ser a solução para isso.
— Vir ou não vir, a escolha é do Sr. Porto. Em uma hora, no restaurante do terraço do Estância do Ouro Palace. Quem chegar tarde, perde.
Dito isso, sem dar espaço para que Jocelino desse outra desculpa, ela desligou o telefone na cara dele.
Ouvindo o som de linha ocupada, Jocelino abaixou o celular. Aquela expressão de conflito interno e ingenuidade sumiu instantaneamente de seu rosto, sendo substituída por uma frieza cortante.
Ele olhou para Aeliana e Wallace:
— O peixe mordeu a isca.
— Pelo visto, ela, ou as pessoas por trás dela, já investigaram o nosso histórico de cabo a rabo.

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