Branca
O tempo não passava.
Os minutos se esticavam como se estivessem rindo de mim. Cada segundo parecia durar mais do que o anterior, e eu já não sabia dizer há quanto tempo estava sentada naquele sofá, encarando a parede à minha frente sem realmente vê-la.
Eu não podia ficar no quarto. Não enquanto Aelyn dormia tranquila, sem saber que talvez sua vida virasse de cabeça para baixo de novo.
Não enquanto a casa inteira parecia suspensa numa espera horrível, como se qualquer ruído mais alto pudesse acordar não só uma criança, mas uma tragédia inteira.
André andava de um lado para o outro com o celular colado à mão, os passos rápidos demais, nervosos demais.
“Calma, Branca”, ele dizia, pela décima vez. “A gente ainda está dentro do protocolo.” ele tentava passar calma, mas eu via que ele estava tão tenso quanto eu.
“Protocolo não impede gente de morrer”, rebati, a voz saindo quebrada. “Ele sumiu, André. Ele simplesmente sumiu.”
O carro do Cássio tinha sido encontrado no estacionamento do hospital. Trancado. Intacto. Como se ele tivesse evaporado no ar.
A polícia tinha sido acionada, mas a resposta veio fria, burocrática, impessoal demais para o meu desespero:
Precisamos aguardar 24 horas para registrar desaparecimento.
Vinte e quatro horas.
Eu não tinha vinte e quatro horas dentro de mim. E talvez Cássio não tivesse.
“Isso não é um desaparecimento comum”, falei, sentindo o peito apertar até doer. “Foi o Jonathan. Eu tenho certeza de que foi ele, e você também.”
André parou no meio da sala.
“Branca…”
“Foi ele”, insisti. “Eu sei. Eu sinto.” Levei a mão ao peito, como se pudesse arrancar aquele pressentimento de dentro de mim. “Ele não faria isso com mais ninguém. Só com alguém que estivesse entre ele e o que ele acha que é dele.”
Vânia apareceu na porta da cozinha com uma xícara nas mãos.
“Filha, toma um pouco de chá”, pediu, com a voz mais suave do que eu lembrava dela ter usado comigo em anos. “Camomila. Vai te acalmar.”
Balancei a cabeça.
“Eu não quero chá”, respondi, quase sem voz. “Eu quero o Cássio.”
Ela se aproximou devagar, como se eu fosse um animal ferido que pudesse fugir a qualquer momento.
“Querida, você precisa se poupar. Você também está machucada.”
“Eu não consigo pensar em mim agora”, rebati. “Eu não consigo pensar em mais nada.”
Meu celular estava na minha mão havia horas. Eu já tinha ligado dezenas de vezes para o celular dele.
Mas continuava do mesmo jeito, sempre caixa postal.
André começou a falar com alguém ao telefone, tentando contato com conhecidos, com seguranças do hospital, pedindo acesso às câmeras, tentando descobrir com quem Cássio tinha saído.
E eu só conseguia pensar em uma coisa:
E se eu demorei demais para perceber?
"Vou buscar um calmante para você, filha. Não pode ficar nesse estado."

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz