Cássio
O primeiro golpe não veio como aviso.
Veio como confirmação.
Jonathan não queria conversar. Nunca quis.
Quando senti os braços me segurarem por trás e o impacto seco do soco no estômago, entendi imediatamente: aquela reunião nunca teve a intenção de terminar com um acordo.
O ar saiu dos meus pulmões de uma vez só. O mundo escureceu por um segundo, mas eu permaneci em pé. Não por força física. Por orgulho.
“Vejo que não temos um acordo”, falei, cuspindo sangue no chão polido daquela casa ridiculamente elegante.
Jonathan riu.
Um riso curto, descontrolado, do tipo que nasce da frustração misturada com posse ferida.
“Você ainda acha que está em posição de dizer alguma coisa?”, ele respondeu, caminhando em círculos à minha frente. “Eu tentei ser razoável. Dei opções. Mas você resolveu brincar comigo.”
Outro golpe. Dessa vez no rosto.
Minha cabeça virou de lado, a dor explodindo atrás dos olhos. Senti o gosto metálico se espalhar pela boca, mas não gemi. Não dei a ele esse prazer.
Jonathan se aproximou, segurando meu queixo com força suficiente para quase deslocar.
“Você acha mesmo que pode tocar no que é meu?”, sussurrou. “A Branca é minha. Sempre foi. Você só está usando ela enquanto eu resolvo meus assuntos. Mas eu nunca vou deixar que ela seja de mais ninguém. Prefiro ela morta do que divorciada de mim.”
Fechei os olhos por um segundo. Quando abri, encarei-o com tudo o que ainda me restava.
“Ela nunca foi sua.”
O silêncio que veio depois foi perigoso.
Jonathan me soltou de repente, como se tivesse se queimado.
“Não soltem ele”, ordenou, a voz alterada.
Senti mais mãos em mim. Jonathan queria que eu soubesse que aquilo era uma escolha. Que eu estava ali porque ele permitia.
“Você mentiu pra mim”, ele continuou, andando até o bar e enchendo o copo outra vez. “Disse que ia cooperar. Disse que me daria o que eu queria.”
“Eu disse que conversaria”, respondi com dificuldade. “Não que obedeceria.”
Ele virou de uma vez só.
“É senhor juiz, o que dizem sobre você é bem condizente”, cuspiu. “Até o processo que está sofrendo. Sabe o do órgão que você comprou? A tal Clara.. Esse é o nome dela né?”
"Você também está envolvido? Mas eu nem conhecia você... como...?"
"Eu descobri sobre o que ela fez, te denunciando, e comprei o silêncio dela. Te garanto que a mandei para um lugar onde você nunca vai achar..."
Dei uma risada curta, dolorida.
“Então estamos quites”, rebati. “Seu filho está num lugar que você nunca vai achar. Por que é burro demais.”
Jonathan avançou de novo.
O soco seguinte me fez cair de joelhos.
A dor explodiu nas costelas, quente, profunda. Algo ali não estava certo. Mas eu não gritei. Não pedi. Não implorei.
Porque se havia uma coisa que eu tinha decidido naquela noite era simples:
Eu não entregaria a Branca.
Nunca.
“Eles vão voltar pra mim”, ele disse, agachando à minha frente. “E quando isso acontecer, vou fazer questão de contar que você tentou vender uma criança pra me agradar.”
Levantei o rosto com dificuldade.
“Ela vai te odiar”, continuou. “Quando souber que você entregou o filho dela.”
Sorri, mesmo com a boca sangrando.
“Vamos ver quem ela odeia mais.”
Jonathan me encarou por um segundo inteiro.
VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz