Branca
Eu comia devagar.
Não porque estava com fome, mas porque precisava manter as mãos ocupadas. Um pedaço pequeno de fruta, uma mastigada longa demais, o copo de suco apoiado com cuidado na bandeja. Tudo para não explodir.
Minha mãe falava, falava e falava. Não parava de reclamar, do Cássio, da postura dele. Do beijo. Da ousadia. Da forma como “homem nenhum tinha o direito de se impor daquele jeito”. De como ele estava se aproveitando da minha fragilidade. De como aquilo tudo era apenas para reparar o erro que ele não foi capaz de impedir.
Eu assentia de vez em quando, mas não para ela e sim para mim, porque minha mente vagava bem longe dali. Era sempre assim. Quando ela vinha com os seus sermões, minha mente se desprendia da realidade, e me levava para qualquer refúgio, e naquele momento, Cássio invadia todo o meu pensamento.
No jeito como ele entrou no quarto. No olhar calmo demais para quem estava declarando guerra. No beijo rápido, proposital, absolutamente consciente.
Um cretino.
Um cretino gostoso e perigosamente decidido.
Ele sabia exatamente o que estava fazendo. Sabia o risco. Sabia que estava comprando uma briga. E mesmo assim… ficou.
Isso me arrancou um sorriso de canto.
“Você está prestando atenção no que eu estou falando?”
Levantei os olhos devagar.
“Não”, respondi com honestidade. “Não estou.”
O choque no rosto dela foi quase cômico.
“Como assim você não está me ouvindo?”, perguntou, ofendida. “Eu estou falando do homem que...”
“Se a senhora não parar”, interrompi, sentindo a voz sair mais firme do que eu esperava, “de falar dele, de tentar enfiar medo na minha cabeça e de ser… irritante, eu vou pedir pro Cássio mandar os seguranças dele te levarem de volta pra casa do André.”
Os olhos dela se arregalaram.
“Branca...”
“Não mãe. Chega. Se a senhora não parar, vou pedir pra ele proibir qualquer um de vocês dois de se aproximar de mim”, continuei, sem subir o tom. “Não estou brincando. Eu estou cansada das imposições de vocês. Acho que quando eu fugi do Jonathan, eu fugi de vocês também.”
O silêncio caiu pesado.
Empurrei a bandeja para o lado e, com cuidado, me virei na cama, colocando os pés no chão. O movimento puxou um pouco a cirurgia, mas a dor era menor do que o que eu estava sentindo por dentro.
Respirei fundo antes de falar de novo.
“Eu sei que sumi. Sei que a senhora ficou com medo. Sei que acha que está tentando me proteger.”
Levantei o olhar para ela.
“Mas eu não sou mais aquela garotinha.”
A palavra saiu com gosto amargo.


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