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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 69

Branca

Eu comia devagar.

Não porque estava com fome, mas porque precisava manter as mãos ocupadas. Um pedaço pequeno de fruta, uma mastigada longa demais, o copo de suco apoiado com cuidado na bandeja. Tudo para não explodir.

Minha mãe falava, falava e falava. Não parava de reclamar, do Cássio, da postura dele. Do beijo. Da ousadia. Da forma como “homem nenhum tinha o direito de se impor daquele jeito”. De como ele estava se aproveitando da minha fragilidade. De como aquilo tudo era apenas para reparar o erro que ele não foi capaz de impedir.

Eu assentia de vez em quando, mas não para ela e sim para mim, porque minha mente vagava bem longe dali. Era sempre assim. Quando ela vinha com os seus sermões, minha mente se desprendia da realidade, e me levava para qualquer refúgio, e naquele momento, Cássio invadia todo o meu pensamento.

No jeito como ele entrou no quarto. No olhar calmo demais para quem estava declarando guerra. No beijo rápido, proposital, absolutamente consciente.

Um cretino.

Um cretino gostoso e perigosamente decidido.

Ele sabia exatamente o que estava fazendo. Sabia o risco. Sabia que estava comprando uma briga. E mesmo assim… ficou.

Isso me arrancou um sorriso de canto.

“Você está prestando atenção no que eu estou falando?”

Levantei os olhos devagar.

“Não”, respondi com honestidade. “Não estou.”

O choque no rosto dela foi quase cômico.

“Como assim você não está me ouvindo?”, perguntou, ofendida. “Eu estou falando do homem que...”

“Se a senhora não parar”, interrompi, sentindo a voz sair mais firme do que eu esperava, “de falar dele, de tentar enfiar medo na minha cabeça e de ser… irritante, eu vou pedir pro Cássio mandar os seguranças dele te levarem de volta pra casa do André.”

Os olhos dela se arregalaram.

“Branca...”

“Não mãe. Chega. Se a senhora não parar, vou pedir pra ele proibir qualquer um de vocês dois de se aproximar de mim”, continuei, sem subir o tom. “Não estou brincando. Eu estou cansada das imposições de vocês. Acho que quando eu fugi do Jonathan, eu fugi de vocês também.”

O silêncio caiu pesado.

Empurrei a bandeja para o lado e, com cuidado, me virei na cama, colocando os pés no chão. O movimento puxou um pouco a cirurgia, mas a dor era menor do que o que eu estava sentindo por dentro.

Respirei fundo antes de falar de novo.

“Eu sei que sumi. Sei que a senhora ficou com medo. Sei que acha que está tentando me proteger.”

Levantei o olhar para ela.

“Mas eu não sou mais aquela garotinha.”

A palavra saiu com gosto amargo.

69. Pingos nos is 1

69. Pingos nos is 2

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