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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 68

Cássio

Eu não pretendia ouvir.

Mas ouvir foi inevitável.

Fiquei parado do lado de fora do quarto, a bandeja ainda apoiada na bancada, o cheiro de bolo simples misturado com café morno subindo devagar, enquanto as palavras atravessavam a porta entreaberta e se alojavam em mim como estilhaços.

Cada frase da Branca. Cada resposta da mãe dela. Cada silêncio pesado entre elas.

E, no meio de tudo, a constatação que me acertou em cheio: ela não estava só protegendo a Aelyn. Branca estava apegada nela.

Mais do que eu tinha imaginado. Mais do que talvez fosse saudável.

Por um instante curto, cruel, pensei se tinha feito a coisa certa ao trazê-la para dentro da nossa vida. Se não estava misturando dores que ainda sangravam. Se não estava criando um desastre emocional para todo mundo envolvido.

Mas o pensamento morreu tão rápido quanto nasceu.

Porque, naquele momento, eu não estava disposto a abrir mão dela. Ela representava muito para mim e para minha filha e abrir mão dela seria como, arrancar novamente um pedaço do meu coração.

Peguei a bandeja e empurrei a porta com a outra mão, ela deslizou suavemente, junto com a cortina.

As duas ficaram em silêncio imediatamente.

Branca estava recostada na cama, o rosto ainda cansado. A mãe dela, Vânia, estava de pé ao lado, braços cruzados, postura rígida, o tipo de mulher que não precisava levantar a voz para dominar um ambiente.

“Trouxe alguma coisa pra você comer”, falei, quebrando o clima. “Desde que chegou, não colocou nada no estômago e queremos que você se recupere logo.”

Branca me olhou e soltou um meio sorriso.

“Não precisava.”

“Precisava, sim”, respondi, aproximando-me. “Você precisa se alimentar. Não é opcional. Trouxe apenas o que a nutricionista liberou, mas ela disse que qualquer desconforto, é para parar de comer e ela ajusta de novo.”

Antes que eu pudesse entregar a bandeja, Vânia estendeu a mão.

“Pode me dar”, disse, seca. “Eu faço ela comer.”

O olhar de Branca veio direto para mim. Um aviso silencioso.

“Não precisa”, falei, mantendo a calma. “Eu...”

“Precisa, sim”, ela cortou. “Você já cuidou demais da sua parte. Agora pode voltar a cuidar da sua filha. Eu cuido da minha.”

O ar ficou denso.

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