Branca
Não sei quanto tempo dormi.
O corpo ainda estava pesado, a dor vinha em ondas suaves, controladas pelos remédios. Abri os olhos devagar, piscando algumas vezes até a visão se ajustar.
Vi uma mulher de costas para mim.
Estava de pé, perto da janela, observando o jardim com as mãos cruzadas à frente do corpo. Postura reta. Elegante. Familiar de um jeito que apertou meu peito antes mesmo de minha mente alcançar.
Me movi na cama com cuidado.
“Olá…” minha voz saiu baixa, rouca de sono.
A mulher se virou e o mundo parou.
“Mamãe…”
Ela levou a mão à boca no mesmo instante. Os olhos marejaram, e em dois passos rápidos ela já estava ao meu lado, me puxando para um abraço apertado, urgente, como se tivesse medo de eu desaparecer se soltasse.
“Minha filha… meu Deus, minha filha…” beijava meu rosto, meu cabelo, minhas têmporas. “Eu não acredito que estive tão perto esse tempo todo e não sabia. Não acredito.”
As lágrimas vieram sem pedir permissão.
Cinco anos.
Cinco longos anos.
“Quando o André me contou que tinha te encontrado… e depois tudo isso que aconteceu… eu não sabia se ria ou se chorava.” Ela me abraçou de novo, mais forte. “Achei que tinha te perdido para sempre.”
Respirei fundo, tentando me ancorar naquele cheiro conhecido, naquela presença que sempre foi porto e também tempestade.
Quando nos afastamos um pouco, ela enxugou meu rosto com os polegares, me examinando como se eu ainda fosse adolescente.
Então meu olhar deslizou para a cama mais baixa, vazia.
"Onde está a Aelyn? Ela estava dormindo..."
“Ela acordou há meia hora”, respondeu. “E foi ficar com o pai.” Assenti. “Eu pedi para eles nos deixarem um momento sozinhas.”
"Obrigada. Tudo ainda está muito confuso para ela."
Houve um silêncio curto. Denso.
Então ela respirou fundo e veio a pergunta que eu sabia que viria.
“Por que você não me procurou quando fugiu, Branca?” A voz não era acusatória. Era ferida. “Eu poderia ter ajudado. Poderia ter mandado vocês para mais longe. Para fora do país, se fosse preciso. Talvez o Pedro ainda estaria...”
Soltei o ar devagar.
“Jonathan nos acharia”, respondi. “Ele sempre acha.” Engoli em seco. “Acho que o André te contou que ele apareceu no hospital.”
O rosto dela se fechou.
“Contou.”
“Ele não vai parar, mamãe.” Olhei direto para ela. “Você sabe disso. Conviveu com meu pai até a morte dele. Só teve paz depois e olha lá, porque meu avô ainda te perturbou, quando tentou intervir para me ajudar.”
Os olhos dela baixaram por um instante.
Concordou com a cabeça.
“Mas com você é diferente”, disse. “Agora você tem o André. Tem a mim. A gente pode te proteger. Se você quiser, a gente procura um lugar para você agora mesmo, e você já se muda... eu posso ir com você. André mantém as coisas... enquanto a gente se muda para bem longe.”
Balancei a cabeça.

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