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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 66

Cássio

A casa finalmente tinha acalmado.

Aelyn dormia, esgotada depois da brincadeira de médica, e Branca estava deitada, descansando como o médico tinha recomendado, ou pelo menos tentando. A porta do quarto permanecia entreaberta, para que se qualquer uma das duas precisasse, sabia que poderia me chamar.

Eu estava na sala, sentado no sofá, com uma pilha de currículos espalhada sobre a mesa de centro. Candidatas para a vaga de cozinheira. Pessoas que eu mal conhecia, mas que, a partir de agora, teriam acesso à minha casa, à minha filha… e à mulher que quase morreu ali dentro.

Passei o olhar por mais um papel sem realmente ler.

Minha atenção não estava nos currículos. Estava nos sons da casa, no corredor silencioso, no quarto ao lado. Depois de tudo o que tinha acontecido, aquela calmaria parecia frágil demais para ser ignorada.

Foi quando o celular vibrou na mesa.

Ignorei por alguns segundos.

Depois vibrou de novo.

Peguei, impaciente.

E o mundo pareceu se desfazer.

Assunto: Afastamento cautelar de funções — Processo Administrativo Disciplinar

Li uma vez. Duas. Três.

Cada palavra parecia escrita para me provocar.

Afastamento temporário das funções jurisdicionais.

Indícios relevantes anexados ao processo.

Necessidade de preservar a lisura da investigação.

“Filhos da puta…”

O sangue subiu rápido. Joguei os currículos sobre a mesa e me levantei, andando pela sala como um animal preso.

Eles não podiam fazer isso. Não agora. Não depois de tudo.

Disquei o número do André antes mesmo de pensar.

Ele atendeu rápido demais.

“Você viu o e-mail?”, perguntei, sem rodeios.

“Vi.”

“Como assim vi?”, explodi. “Eles não podem me afastar! Isso é perseguição, André! Eu não fiz porra nenhuma.”

Do outro lado, silêncio por um segundo. Aquele silêncio que antecede uma notícia ruim.

“Eles anexaram mais provas.”

Fechei os olhos.

“Que provas?”, rosnei.

“A movimentação financeira. O intermediário. O vínculo com a clínica estrangeira.” A voz dele era controlada, profissional. “Tudo leva a crer, para quem está de fora, que você comprou o coração da Aelyn.”

A palavra comprou me acertou como um soco.

“Isso é um absurdo”, falei, sentindo a raiva misturar com algo mais perigoso. “Você sabe que eu não fiz isso.”

“Eu sei”, ele respondeu. “Mas o processo não trabalha com o que eu sei. Trabalha com o que conseguem provar.”

Passei a mão pelo rosto, sentindo o maxilar doer de tanto apertar.

"Então prova que eu sou inocente, porra. Como eles podem conseguir me incriminar dessa forma, e você não conseguir nada a nosso favor?"

"Você sabe como isso funciona. Bem mais do que quer admitir." Meu peito doía, minha cabeça parecia que iria explodir.

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