Branca
3 dias depois
A discussão com André terminou do jeito que todas as nossas discussões sempre terminavam.
Sem acordo real. Só com decisões impostas.
“Então pronto”, ele disse, cruzando os braços, o maxilar duro. “Se você vai ficar na casa dele, nossa mãe vai ficar lá também.”
Arregalei os olhos.
“O quê?” Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. “Você só pode estar brincando.”
“Não estou.” Ele nem piscou. “Quero alguém da minha confiança com você o tempo todo. Cássio já provou que não consegue garantir sua segurança.”
“Isso é um absurdo, André”, rebati. “Eu não sou uma criança.”
“Não, você é uma mulher que quase morreu”, ele devolveu. “E eu não vou arriscar de novo. Não posso perder você também.”
Respirei fundo, sentindo a dor no abdômen reclamar. Olhei para o Cássio, esperando, na verdade implorando, que ele dissesse alguma coisa. Que colocasse um limite. Que discordasse.
Mas ele apenas inclinou a cabeça, tranquilo demais.
“Não vejo problema.”
Virei para ele, indignada.
“Cássio!”
“O André quer se sentir seguro”, ele respondeu, firme. “Se isso ajuda, tudo bem.”
“Mas...”
“Branca”, ele me interrompeu, com aquela calma perigosa. “Você precisa descansar. Não discutir. E ela é sua mãe, que problema existe nisso?”
Meu irmão abriu um meio sorriso vitorioso.
“Então está decidido.”
Fechei os olhos por um segundo, vencida. Não porque concordava. Mas porque estava cansada demais para continuar lutando.
O trajeto até a casa do Cássio foi silencioso no começo.
Eu observava as luzes da rua passando pela janela, tentando ignorar o peso no corpo e na cabeça. Sentia uma dor surda, constante, mas suportável. O tipo de dor que te lembra o tempo todo que algo muito errado aconteceu e que você ainda está pagando por isso.
“Você está muito quieta”, ele disse, quebrando o silêncio. “Está sentindo alguma coisa?”
“Um pouco de dor”, respondi. “Mas é normal. Quando chegar na sua casa eu tomo o remédio.”
Ele assentiu, mas não parecia convencido.
"Se quiser, posso passar na farmácia e pegar algo mais forte."
"Não precisa. Eu estou bem de verdade. Acho que quando eu ver a Aelyn tudo vai melhorar." sorri de lado
“Ela pergunta de você toda hora, mas não dorme direito há dias”, comentou depois de alguns segundos. “Está ansiosa desde que você saiu do hospital.”
Olhei para ele.
“Por quê?”
Ele desviou o olhar por um instante, como se escolhesse as palavras.
“Seu irmão contou pra ela que nós estamos namorando.”
O mundo deu uma leve inclinada.
“O quê?”
Ele me olhou de lado, divertido demais para a bomba que tinha acabado de soltar.
“Pois é.”
“Eu não acredito nisso”, murmurei, passando a mão pelo rosto. “Como ele… meu Deus. Ela vai criar uma história inteira na cabeça.”
Ele riu.
“Já criou.”
Soltei um suspiro longo, cansado.
“Parece que essa loucura nunca vai acabar.”
“É tão ruim assim estar comigo?”, ele questionou, sorrindo.
"É ruim mentir para uma criança. Nós estamos iludindo a pobrezinha."



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