Cássio
Eu estava a um passo de atravessar alguém.
O diretor do hospital falava demais e no final não dizia nada. Gesticulava, tentava manter a voz baixa, chamava meu nome como se isso fosse suficiente para me acalmar. Mas não era.
“Isso é inaceitável”, rosnei. “Completamente inaceitável.”
“Senhor Ravelli, nós entendemos a gravidade, mas...”
“Não, você não entende.” Dei um passo à frente. “Um homem entrou aqui disfarçado, passou pela sua equipe, bateu na minha mulher dentro de um quarto de UTI. Cadê a porra dos seguranças que eu solicitei?”
Ele engoliu seco.
“Já solicitamos os reforços...”
“Já eram para estar aqui, porra”, cortei. “Eu não quero que ninguém chegue perto dela sem passar por mim. Por mim. Se alguém respirar errado naquele corredor, eu quero saber.”
O homem suava.
“O pessoal do TI já está verificando todas as câmeras, senhor. Nós vamos identificar a falha, reparar o erro...”
Cheguei perto o suficiente para que ele tivesse que levantar o rosto.
“E se ele tivesse matado ela?”, perguntei, baixo. “Como você ia reparar esse erro? Como você ia devolver a vida a ela?”
O silêncio caiu pesado.
Antes que eu dissesse mais alguma coisa que me colocasse em manchetes, senti uma mão firme no meu ombro.
“Anda”, André disse. “Isso não vai adiantar agora. Vai lá ficar com ela. Eu resolvo aqui.”
O diretor praticamente suspirou de alívio.
“Quero respostas ainda hoje. O nome de quem facilitou a entrada desse desgraçado. Se não aparecer, alguém vai responder criminalmente no lugar dele.” o homem tremeu na minha frente, mas eu não me compadeci de seu medo.
"Chega Ravelli, ai ficar com ela."
Não discuti. Dei meia-volta e segui pelo corredor, o sangue ainda fervendo, os pensamentos atropelando uns aos outros. Abri a porta e ela estava deitada tranquila, seus olhos buscaram os meus, mas eu os ignorei por meio segundo.
Me sentia fraco por ela ter sido atingida.
Andei de um lado para o outro no quarto, incapaz de ficar parado, como um animal enjaulado.
“Você vai infartar desse jeito”, ela disse. "Conversa comigo, Cássio. Eu to aqui."
Parei e olhei para ela.
A marca vermelha no rosto estava começando a desaparecer, mas os arranhões ainda estavam ali. Pequenos. Visíveis. Reais demais. Aquilo me desestabilizava. Aquele desgraçado chegou perto demais.
Sentei-me na beirada da cama, com cuidado.
“Acostume-se”, falei, a voz mais baixa agora. “Eu não consigo ficar parado quando presencio algo assim. Ainda mais quando envolve alguém por quem eu tenho carinho.”
Ela sorriu de lado, cansada, e segurou minha mão.
“É por isso que eu não queria você envolvido nisso”, ela disse, a voz baixa, mas carregada. “A gente não pode controlar o Jonathan. Assim como você é influente… ele também é.”
Bufei, apertando os dedos dela com cuidado, como se precisasse daquele contato para não explodir.
“Não me subestime.”


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