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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 60

Laís

Eu nunca fui boa com crianças.

Nunca soube o que dizer quando elas fazem perguntas grandes demais para a idade que têm. E a Aelyn… bom, a Aelyn fazia perguntas grandes como gente grande.

Ela estava sentada no sofá, abraçada ao urso novo, as perninhas balançando devagar, os olhos atentos demais para alguém que tinha acabado de ver o mundo virar do avesso.

“Tia Laís…”, ela chamou baixinho.

“Oi, meu amor.” Sorri do jeito mais falso e gentil que consegui.

“Por que fizeram isso com a tia Branca?”

A pergunta veio seca. Direta. Sem rodeio.

Engoli em seco.

“Porque…”, comecei, e parei. Por que o quê? Por que gente adulta é doente? Por que inveja vira ódio? Por que o mundo é injusto pra caralho?

“Porque algumas pessoas são más”, tentei. Soou horrível até pra mim.

Ela franziu a testa.

“Mas por que a tia Glória é má?”

Pronto. Era isso. Eu não tinha manual nenhum pra aquela conversa.

“Ela…”, respirei fundo. “Ela fez escolhas erradas.”

Aelyn pensou por alguns segundos, séria.

“E o que vão fazer com ela?”

“Os adultos vão resolver”, respondi, já me sentindo uma fraude.

Ela me olhou com desconfiança.

“E a tia Branca? Ela vai morrer?”

Meu coração deu um tranco.

“Não”, falei rápido demais. “Ela é forte. Vai ficar bem.”

Aelyn assentiu, mas não parecia convencida. O silêncio que caiu depois foi pesado demais para aquela sala.

Foi aí que decidi: hospital. Agora.

Não por coragem. Por desespero.

"Tive uma ideia. Vamos até lá ver como ela está?" os olhos dela se iluminaram.

"Agora?"

"Agora!" falei já me levantando e a pegando no colo e correndo para o meu carro.

***

Cheguei ao hospital com a Aelyn no colo e uma sensação péssima de que eu estava totalmente fora da minha zona de conforto. Se a Branca me visse agora, daria risada da minha cara. O desespero era nítido.

André estava na recepção, andando de um lado pro outro, bufando. Parecia que a qualquer momento ele iria derrubar aquele hospital.

Aelyn se remexeu no meu colo quando o viu.

“Tio André!”

Ele virou, tentou sorrir, mas estava claramente à beira de explodir.

“Aconteceu mais alguma coisa?”, perguntei, sem rodeio. "A Branca... ela está bem?" a preocupação me acertou.

“Sim”, ele respondeu na lata. “ Ela está ótima, quem não vai ficar é o Cássio. Ele mentiu para as enfermeiras. Disse que é namorado da minha irmã e entrou pra vê-la.”

Pisquei.

“Como é que é?”

“Eu fui até o carro por cinco minutos pra respirar”, ele continuou, irritado. “Cinco minutos. Quando voltei, ele já estava lá dentro.”

Foi então que André parou de falar.

Porque a Aelyn tinha entendido.

“Meu papai é namorado da tia Branca?”, ela perguntou, os olhos começando a brilhar. “É verdade?”

André abriu a boca.

“Não, querida, é que...”

“EEEeeee!” Ela praticamente gritou. “Então agora eu vou ter uma família de verdade!”

Ela começou a pular no colo, abraçando o pescoço dele, rindo alto, feliz de um jeito que doía de ver.

André congelou.

Eu olhei pra ele e balancei a cabeça devagar.

Agora não.

Simplesmente… agora não. Não tinha como ele desmentir aquilo para a menina. Não tinha como resolver a situação agora.

Nesse momento, Cássio apareceu no corredor.

E foi o fim.

“Papai!”, Aelyn gritou, se jogando na direção dele. “Você tá namorando a tia Branca? É verdade? É verdade? Ela vai ser minha nova mamãe?”

Cássio travou.

60. Uma fala errada 1

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