Branca
Eu estava à deriva entre o sono e a dor.
Não dormia de verdade, mas também não estava totalmente acordada. O corpo estava pesado, a mente embaralhada, cada respiração exigindo um esforço. O bip distante dos aparelhos me embalava num quase-silêncio seguro.
Até a porta abrir.
Ouvi o som metálico suave, reconhecível. Hospital tem seus próprios ruídos. Não me assustei. Apenas abri os olhos com dificuldade.
Um enfermeiro entrou empurrando uma bandeja.
Ampolas. Seringa. Luvas. Tudo como de costume.
Esperei ele se virar e falar comigo, mas por algum motivo, dele demorou.
Ele mexeu nos frascos com calma demais, organizada demais, e algo naquele movimento me incomodou. Não consegui dizer o quê. Só senti.
“É mais um remédio pra dor?”, perguntei, a voz fraca. “Estou com um pouco de desconforto.”
Ele não respondeu de imediato.
Quando se virou para mim, percebi a máscara.
E algo gelou dentro do meu peito.
Não era protocolo naquele horário. Não daquele jeito.
“Não”, ele respondeu.
A voz. Aquela maldita voz.
O mundo parou.
Meu coração disparou tão forte que doeu. O ar ficou pesado demais para entrar.
“Jonathan…”, sussurrei, antes mesmo de pensar.
Ele riu baixo.
A mão foi mais rápida que meu reflexo. Quando tentei alcançar o botão de emergência, ele segurou meu braço com força, esmagando minha pele sensível.
“Tão bom saber que ainda me reconhece, esposa.”
Ele tirou a máscara.
O rosto que eu conhecia melhor do que gostaria. Os olhos frios. O sorriso torto, satisfeito.
“Que felicidade a minha”, continuou, aproximando-se. “Você continua atraindo inimigos por onde passa. O que foi dessa vez? A cozinheira achou que sua carne era melhor do que a comprada no mercado?”
O medo veio como um soco.
Mas a raiva veio logo atrás.
“Vai pro inferno”, rosnei.
Ele riu.
“Cinco anos, Branca. Cinco longos anos procurando por você… e pelo meu filho.” Os olhos dele escureceram. “Sabe o quanto isso me custou? O quanto eu gastei? O quanto me frustrou?”
Apertei os dentes.
“Olha o que você me fez fazer”, disse, abrindo os braços. “Me disfarçar para entrar num hospital. Tudo isso pra chegar perto do que é meu.”
Cuspi nele.
O cuspe acertou o queixo.
Por um segundo, pensei que ele fosse me bater ali mesmo. Mas ele apenas se afastou, limpando o rosto devagar, o sorriso desaparecendo.
“Eu não sou sua”, falei, tremendo, mas firme. “Eu já entrei com o pedido de divórcio. Nós não temos mais nada.”


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