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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 58

Cássio

Eu estava sentado na recepção havia tempo demais.

O hospital tinha aquele cheiro neutro e agressivo ao mesmo tempo, mistura de antisséptico, café velho e ansiedade. Minha perna balançava sem parar, o cotovelo apoiado no joelho, os dedos entrelaçados como se eu pudesse conter o caos só mantendo as mãos ocupadas.

Foi quando vi André saindo do corredor da UTI.

Levantei na mesma hora.

“E então?”, perguntei, indo na direção dele. “Como ela está?”

Ele nem diminuiu o passo. Passou por mim com o maxilar travado, os olhos duros.

“Eu mandei você ficar longe da minha irmã.”

Parei.

Por um segundo, pensei em mentir. Em inventar alguma versão mais limpa, mais aceitável. Mas ela tinha contado. E se ela teve coragem de assumir, eu não seria menor do que isso.

Respirei fundo.

“Eu sei.”

Ele parou de vez e virou para mim, a raiva finalmente escapando.

“Eu só não te quebro aqui agora porque a Branca não merece mais esse espetáculo”, disse, baixo, perigoso. “Mas a gente ainda vai resolver isso, Cássio. Ah, se vai.”

Sustentei o olhar dele e falei a verdade, inteira.

“Eu e sua irmã nos conhecemos num bar. Rolou química. A gente ficou.” Engoli seco. “Dias depois eu descobri que ela trabalhava no mesmo hospital onde a Aelyn estava internada. Minha filha se apegou a ela.” Passei a mão no rosto. “Eu tentei afastá-la. Pode perguntar pra Branca. Mas foi mais forte do que eu.”

André soltou uma risada curta, sem humor.

“Então a louca da Glória tinha motivos.” Ele deu um passo à frente. “Você devia ter pensado nisso. Nem parece um juiz criminal. Achou mesmo que uma mulher instável ia deixar minha irmã em paz, ainda mais sabendo que vocês estavam juntos?”

Cada palavra era um golpe.

“Você foi omisso”, ele continuou. “E o que aconteceu com ela é culpa sua.”

Engoli em seco.

“É”, respondi. “Foi culpa minha.” Sustentei o peso disso. “E eu vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance pra reparar.”

Ele me encarou por mais alguns segundos, respirando pesado.

“A Branca não vai voltar pra sua casa”, decretou. “Eu já avisei ela. E estou te avisando agora. Chega dessa palhaçada.”

Passou por mim, batendo o ombro no meu com força.

Fiquei parado, olhando para a porta automática se fechar atrás dele. Esperei. Um minuto. Dois. Como se ele fosse voltar, como se ainda tivesse mais coisas para falar. Ou me socar, o que eu entenderia completamente.

Mas ele não voltou.

Pensei por alguns segundos em ir atrás dele e resolver a situação, mas algo dentro de mim me impedia. Era como se eu escutasse a Branca pedindo por mim e então a ideia surgiu.

Me aproximei do balcão.

“Agora eu posso ver minha namorada?”, perguntei, a voz mais firme do que eu me sentia.

A enfermeira levantou o olhar, surpresa.

“Somente familiares diretos podem entrar.”

“Mas a gente mora junto”, respondi, sem pensar demais. “É praticamente a mesma coisa.”

Ela trocou um olhar rápido com outra enfermeira.

Eu continuei, sentindo algo se alinhar dentro de mim com cada palavra.

58. Uma mentirinha 1

58. Uma mentirinha 2

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