Branca
A dor veio antes da consciência.
Não era uma dor pontual. Era espalhada pelo corpo todo, como se meu corpo inteiro tivesse sido atropelado e esquecido no asfalto. Abri os olhos com dificuldade, a luz branca acima de mim ardendo forte demais, o cheiro de hospital invadindo meus sentidos antes mesmo de eu entender onde estava.
Tentei me mexer.
Uma fisgada violenta atravessou meu abdômen e um gemido escapou sem que eu conseguisse conter.
“Ei… calma. Calma.”
A voz veio acompanhada de um toque firme e quente na minha mão.
Pisquei algumas vezes até conseguir focar.
“André…”
Ele estava ali. De pé ao lado da cama, o rosto cansado, os olhos vermelhos, como se tivesse passado a noite inteira sem piscar. Segurava minha mão com força demais para alguém que dizia estar calmo.
“Eu tô aqui”, ele disse. “Você me deu um susto do caralho.”
Tentei sorrir, mas o rosto não obedeceu direito. Ainda assim, senti um alívio estranho. Meu irmão estava ali, ele estava bem. Foi um ataque exclusivo a mim.
Mas, junto com o alívio… veio a frustração.
Porque, por um segundo, só um, eu tinha certeza de que quem estaria ali seria o Cássio.
Engoli isso em silêncio.
“O que… aconteceu?”, perguntei, a voz fraca, seca.
André respirou fundo antes de responder, como se escolhesse cada palavra.
“Você foi esfaqueada na cozinha. Perdeu bastante sangue. A faca atingiu o intestino delgado, mas os médicos conseguiram reparar.” Ele apertou minha mão de leve. “Você tá na UTI só por precaução. Mas vai ficar tudo bem.” ele beijou minha testa.
Fechei os olhos por um instante.
A cozinha. O sorriso da Glória. A dor.
“Você sabe quem fez isso com você?”, ele perguntou, com cuidado.
Abri os olhos de novo e não hesitei.
“Glória.”
O maxilar dele travou.
“Cássio tinha razão.” Ele assentiu devagar. “Todo mundo já está atrás dela. Segurança, polícia. Ela não vai longe. E quando acharem… ela vai pagar caro.”
Respirei fundo, sentindo o peito doer mais pela tensão do que pelo ferimento. No momento que ela se afastou, fiquei com medo dela seguir até a sala e atacar a Aelyn e o Cássio. Fiquei com medo de sua revoltar ser tão grande a ponto de descontar neles também.
“E a Aelyn?”, perguntei rápido demais, o medo se espalhando por meu peito.
André suavizou o olhar.
“Ela está com a Laís. Assustada, mas bem. O pai dela pediu pra não trazerem ela pro hospital.” Ele fez uma pausa. “Todo mundo ficou em choque.”
Assenti.
Fiquei alguns segundos em silêncio, organizando pensamentos que pareciam escorrer pelos cantos da minha cabeça. Até que o nome escapou antes que eu pudesse segurar.
“E o Cássio?”
A palavra saiu natural. Íntima demais.
Percebi tarde demais.
André arqueou levemente a sobrancelha, mas respondeu.
“O senhor Ravelli está correndo atrás de tudo. Ele está tão surpreso quanto nós com o que a Glória fez.” Fez uma pausa curta. “Está resolvendo a situação do jeito dele.”


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