Cássio
Cheguei ao hospital depois de um banho que não resolveu nada.
A água levou o sangue do meu corpo, mas não levou a sensação. Ainda sentia o peso dela nas mãos, o calor escorrendo, o medo colado na pele como se tivesse entranhado nos poros. Vesti a primeira roupa limpa que encontrei, peguei o carro e dirigi rápido demais, sem ver ninguém pelo caminho.
Quando entrei na emergência, vi André de longe.
Ele estava de pé, encostado na parede branca da recepção, os braços cruzados, a mandíbula travada. O tipo de postura que não deixava dúvidas: ele estava segurando algo grande demais para não explodir.
Aproximei-me devagar.
"E ai, já disseram alguma coisa?"
Ele negou com a cabeça, os olhos vermelhos, mas secos.
"Nada. Só que ela está em cirurgia." Então me encarou de verdade. "Que porra aconteceu lá, Cássio?" A voz saiu baixa, mas cheia de ódio contido. "Você disse que ia proteger a minha irmã."
Aquilo me atingiu em cheio.
"Eu sei." Passei a mão pelos cabelos, sem saber onde colocar a culpa. "A Branca comentou que a Glória estava interessada em mim. Disse que achava que era por isso que nenhuma babá ficava. Que ela sempre dava um jeito de tirar." Engoli seco. "Mas sua irmã peitou ela. Acho que… desestabilizou a mulher. Eu não sei. Não achei que ela seria capaz de algo assim."
André respirou fundo, dando dois passos de um lado pro outro.
"E cadê essa desgraçada?" perguntou. "Já prenderam?"
"Não." A resposta saiu dura. "Ela fugiu. Aproveitou a confusão. Mas eu já coloquei todo mundo atrás dela. Segurança, polícia… ela não vai longe. Vamos achar. E isso não vai ficar assim."
"Ah mas não vai mesmo. Vou fazer ela pagar por isso."
"Vou achá-la, pode ter certeza."
Ele assentiu, mas não parecia convencido. O silêncio que caiu entre nós era pesado demais.
A culpa se acomodou no meu peito de um jeito incômodo. Se eu não tivesse deixado passar tanta coisa. Se eu tivesse ouvido a Branca antes. Se eu tivesse prestado atenção nos sinais.
Caminhei até a recepção.
"Com licença", falei para a atendente. "Tem alguma previsão de notícias da paciente Branca…?"
Ela me interrompeu com um olhar profissional.
"Somente os médicos podem passar informações, senhor. Assim que houver atualização, eles virão conversar com você."
Assenti e voltei a andar.
Sentava. Levantava. Andava de um lado pro outro. Olhava o celular sem ver nada. O tempo parecia uma provocação cruel. Cada minuto se arrastava como se quisesse me lembrar que eu não tinha controle nenhum ali.
Depois de horas ou minutos, não sei, dois médicos apareceram.
André e eu nos levantamos ao mesmo tempo.

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