Cássio
Ela demorou.
Não muito. Mas o suficiente para me incomodar.
Olhei de relance para a tela da TV, tentando acompanhar o filme, enquanto a Aelyn comentava alguma coisa animada demais para o momento da história. Laís ria, André estava sentado mais afastado, mexendo no celular, mas atento. Tudo parecia normal.
Normal demais.
"Branca está demorando, não está?" Laís comentou, me olhando de soslaio.
"Está." falei sério, sentindo uma pressão em meu peito, como se algo estivesse errado.
“Ás vezes ela foi no banheiro”, disse André, como se tivesse lido meu pensamento. “Quer que eu vá lá ver?”
Neguei com a cabeça.
“Não. Pode deixar. Eu vou.”
Levantei do sofá com aquela sensação estranha no estômago, um aperto que não fazia sentido. Caminhei pelo corredor tentando me convencer de que era só paranoia. A casa estava silenciosa demais naquela parte. Nenhuma voz. Nenhum som de passos. Onde ela estaria?
“Branca?”, chamei ao me aproximar da cozinha.
Nada.
Entrei.
A primeira coisa que vi foi o chão.
Suco espalhado. Vidro quebrado. A jarra estilhaçada em dezenas de pedaços que refletiam a luz fria do teto.
Meu coração disparou.
“Branca?”, chamei de novo, agora mais alto.
Dei a volta no balcão. E vi. O mundo simplesmente parou.
Ela estava caída no chão, de lado, o corpo imóvel, o cabelo grudado no rosto pálido. Havia sangue. Muito sangue. Espalhado pelo piso branco como algo impossível de apagar. A faca ainda estava cravada em seu abdômen.
“Não… não… não…” minha voz falhou antes mesmo de sair inteira.
Me ajoelhei no chão, escorregando no próprio sangue dela, ignorando tudo. Segurei o rosto dela com cuidado absurdo, como se qualquer movimento errado pudesse quebrá-la.
“Branca. Ei. Olha pra mim.” Minha mão tremia enquanto procurava o pulso no pescoço dela. “Fica comigo. Por favor.”
O pulso estava ali. Fraco. Descompassado.
“ANDRÉ!”, gritei com tudo o que tinha nos pulmões. “ANDRÉ, PORRA!”
Senti meu peito se rasgar quando vi o sangue quente escorrendo entre meus dedos.
“Não dorme. Não agora. Você não pode…” engoli em seco, a voz quebrando. “Você não pode morrer.” ela não respondia a nenhum estimulo. "ANDRÉ CORRE AQUI."
André surgiu na porta em segundos.
“O que foi...”
Ele parou. O rosto perdeu a cor.
“Meu Deus.”
“Liga pra emergência!”, berrei. “Agora!”
Ele já estava com o celular na mão, a voz tensa enquanto passava as informações. Eu pressionava a ferida com o que tinha, tentando estancar o impossível, falando com ela sem parar, como se minha voz pudesse segurá-la ali.
“Olha pra mim, Branca. Olha pra mim.”
Nada.
Passos apressados ecoaram atrás de nós.
Laís apareceu com a Aelyn no colo. O rosto dela estava em choque.
“Cássio… o que aconteceu?”
“Leva ela daqui”, falei sem olhar. “Agora. Não deixa ela ver isso.”
Aelyn se mexeu nos braços dela.
“Papai?” a voz saiu pequena. “O que aconteceu com a tia Branca?”
Engoli o nó na garganta.


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