Branca
A cozinha estava vazia.
Silenciosa demais para uma casa que minutos antes parecia cheia de risadas. Abri a geladeira e o ar frio bateu no meu rosto, trazendo um alívio momentâneo. Peguei outra jarra de suco, fechando a porta com o quadril, já pensando em voltar rápido antes que a Aelyn reclamasse.
Foi quando a porta da geladeira foi empurrada com força.
O impacto fez meu braço vacilar, o líquido balançar dentro da jarra.
“Você está ficando louca, Glória?” falei num reflexo, o coração acelerado. “Quase me fez derrubar o suco.”
Ela estava parada atrás da porta. Muito perto.
E sorria.
Não era um sorriso normal. Não era educado, nem disfarçado. Era torto, duro, carregado de algo feio.
“Se derrubar”, ela disse, a voz calma demais, “vai ter que limpar. São as regras, e eu não sou sua empregada.”
Bufei, girando o corpo para passar por ela.
“Com licença.”
“Ainda não”, ela respondeu, dando um passo à frente e bloqueando a saída. “Sua sem-vergonha.”
Parei e fechei os olhos por um segundo, respirando fundo. Quando me virei de novo, mantive a voz firme, mesmo sentindo o estômago revirar.
“Acho que o senhor Ravelli já conversou com você. Não tem por que a gente ter essa conversa de novo. Então, por favor…”
Ela riu.
Um riso baixo. Quase satisfeito.
“Eu devia ter visto os sinais”, disse. “Ele nunca foi tão gentil. Nunca. É claro que você já o conhecia antes. Eu só achei que era coisa da minha cabeça.” Os olhos dela me analisavam como lâminas. “Mas eu nunca estou errada. Eu sempre vejo além. Sempre percebo quando há algo errado. Minha intuição é muito boa.”
Encarei de volta.
“E o que você vai fazer a respeito?”, perguntei. “Pedir demissão?” Dei um meio sorriso, cansado. “Porque está claro que seus joguinhos não funcionam comigo. Então é melhor você ficar na sua e eu na minha. Ninguém interfere no caminho de ninguém.” E podemos conviver em paz."
Ela inclinou a cabeça, fingindo considerar.
“Como se fosse simples assim”, murmurou. “Era isso que você queria, não era? Ficar de boa. Me tirar do seu caminho.”
"Eu nuca estive no seu caminho, Glória. Você que inventou isso. Criou essa loucura em sua mente. Não vê que o senhor Ravelli não quer nada com você?"
"E com você ele quer?" ela falou em deboche.
"Não. Eu só estou aqui até a filha dele melhorar. Depois eu vou embora. Esse é o nosso acordo."
"Ela já melhorou. Se ele quisesse você já podia ir embora. Mas ele parece não querer." eu começava a me irritar com isso.
"Glória, por favor. Chega, tá? Não tem mais nada que eu ou você possamos resolver. Está na hora de a gente conviver pacificamente, e esquecer esse assunto." mnas algo no rosto dela mudou.
Dei um passo para trás, sentindo algo errado demais no ar.
“Isso não vai acontecer”, ela continuou. “Eu estou aqui para proteger o senhor Ravelli. De golpistas como você.” A voz ficou mais baixa. Mais próxima. “Nem que para isso…”

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