Cássio
Abotoei a camisa pela terceira vez.
Não porque estivesse torta, mas porque minha cabeça não estava onde deveria. A gravata já estava no lugar, o paletó alinhado sobre a cadeira, o colete à prova de balas ajustado sob o tecido, um hábito antigo, quase automático. Ainda assim, nada parecia me prender ao presente.
Era o corpo dela.
O cheiro. A forma como me encarou na noite anterior. O peso daquele desejo mal resolvido martelava a minha concentração com uma insistência irritante. Mordi o lábio, fechando os olhos por um segundo, a imagem dela surgindo fácil demais.
Parecia que o banheiro do bar nunca tinha existido, que ontem tinha sido a primeira vez que a gente tinha ficado. E não, não tinha sido o suficiente.
"O próximo lugar será na minha cama." sussurrei para mim mesmo.
O pensamento veio cru, direto, acompanhado de uma certeza incômoda: eu ainda não tinha visto tudo. E queria. Queria tempo. Queria mais. Queria ter uma noite inteira com ela.
"Talvez eu pudesse contratar alguém para ficar com a Aelyn para a gente ir para algum lugar. Um lugar onde a gente possa testar mais nossas resistências." minha mente não parava de criar cenários.
Chacoalhei a cabeça com força.
Para com isso.
Ela era a babá da Aelyn. A mulher que mantinha minha filha em pé emocionalmente enquanto eu tentava segurar o resto do mundo. Se isso desse errado, não seria eu o primeiro a sofrer.
Seria a Aelyn.
"Droga, que merda eu to fazendo."
O toque firme na porta me puxou de volta.
“Juiz Ravelli?”, um dos estagiários disse, entrando com cuidado. “Está tudo pronto. A sala já está aguardando.”
“Obrigado”, respondi, pegando a toga. “Já estou indo.”
O Fórum Criminal Central fervilhava como sempre. O prédio antigo misturava mármore frio, corredores longos e um silêncio quebrado apenas pelo eco de passos apressados e cochichos nervosos. Advogados, promotores, réus algemados, famílias esperando respostas que quase nunca vinham.
Entrei na sala de audiências, ampla, iluminada por janelas altas, o brasão do Estado atrás da cadeira do juiz impondo respeito. Sentei-me, organizei os papéis à minha frente e respirei fundo.
Mais um julgamento.
Olhei primeiro para a defesa. Depois para o acusado.
Latrocínio. Roubo seguido de morte.
O tipo de processo que não deixava espaço para romantização. A promotoria começou a falar, descrevendo os fatos com frieza técnica: horário, local, a vítima surpreendida, a violência desnecessária, o tiro disparado depois que o roubo já tinha sido consumado.
Ouvi tudo.
Mas algo me incomodava.
Levantei os olhos, varrendo a plateia.
Um homem me encarava.
Não piscava. Não desviava. Não cochichava com ninguém. Apenas me olhava, fixo, como se estivesse medindo cada gesto meu.
Meu corpo reagiu antes da mente.


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