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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 42

Cássio

Abotoei a camisa pela terceira vez.

Não porque estivesse torta, mas porque minha cabeça não estava onde deveria. A gravata já estava no lugar, o paletó alinhado sobre a cadeira, o colete à prova de balas ajustado sob o tecido, um hábito antigo, quase automático. Ainda assim, nada parecia me prender ao presente.

Era o corpo dela.

O cheiro. A forma como me encarou na noite anterior. O peso daquele desejo mal resolvido martelava a minha concentração com uma insistência irritante. Mordi o lábio, fechando os olhos por um segundo, a imagem dela surgindo fácil demais.

Parecia que o banheiro do bar nunca tinha existido, que ontem tinha sido a primeira vez que a gente tinha ficado. E não, não tinha sido o suficiente.

"O próximo lugar será na minha cama." sussurrei para mim mesmo.

O pensamento veio cru, direto, acompanhado de uma certeza incômoda: eu ainda não tinha visto tudo. E queria. Queria tempo. Queria mais. Queria ter uma noite inteira com ela.

"Talvez eu pudesse contratar alguém para ficar com a Aelyn para a gente ir para algum lugar. Um lugar onde a gente possa testar mais nossas resistências." minha mente não parava de criar cenários.

Chacoalhei a cabeça com força.

Para com isso.

Ela era a babá da Aelyn. A mulher que mantinha minha filha em pé emocionalmente enquanto eu tentava segurar o resto do mundo. Se isso desse errado, não seria eu o primeiro a sofrer.

Seria a Aelyn.

"Droga, que merda eu to fazendo."

O toque firme na porta me puxou de volta.

“Juiz Ravelli?”, um dos estagiários disse, entrando com cuidado. “Está tudo pronto. A sala já está aguardando.”

“Obrigado”, respondi, pegando a toga. “Já estou indo.”

O Fórum Criminal Central fervilhava como sempre. O prédio antigo misturava mármore frio, corredores longos e um silêncio quebrado apenas pelo eco de passos apressados e cochichos nervosos. Advogados, promotores, réus algemados, famílias esperando respostas que quase nunca vinham.

Entrei na sala de audiências, ampla, iluminada por janelas altas, o brasão do Estado atrás da cadeira do juiz impondo respeito. Sentei-me, organizei os papéis à minha frente e respirei fundo.

Mais um julgamento.

Olhei primeiro para a defesa. Depois para o acusado.

Latrocínio. Roubo seguido de morte.

O tipo de processo que não deixava espaço para romantização. A promotoria começou a falar, descrevendo os fatos com frieza técnica: horário, local, a vítima surpreendida, a violência desnecessária, o tiro disparado depois que o roubo já tinha sido consumado.

Ouvi tudo.

Mas algo me incomodava.

Levantei os olhos, varrendo a plateia.

Um homem me encarava.

Não piscava. Não desviava. Não cochichava com ninguém. Apenas me olhava, fixo, como se estivesse medindo cada gesto meu.

Meu corpo reagiu antes da mente.

42. O julgamento 1

42. O julgamento 2

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