Branca
Acordei com um peso estranho no corpo.
Demorei alguns segundos para entender o motivo. A luz já entrava pelas frestas da cortina, clara demais para o horário em que eu costumava estar de pé. Antes que eu pudesse me culpar por isso, uma voz suave me chamou.
“Tia Branca?”
Abri os olhos num pulo.
Aelyn estava ao lado da cama, vestida, o cabelo ainda um pouco desalinhado, me olhando com curiosidade e um sorriso contido, como se estivesse orgulhosa por ter sido ela a me acordar.
“Você dormiu demais”, disse, baixinho. “Eu já acordei faz tempo.”
O choque foi imediato.
“Meu Deus…”, murmurei, sentando rápido. “Desculpa, meu amor.”
Ela deu de ombros, tranquila demais para alguém que tinha quebrado nossa rotina.
“Não tem problema. Eu não ligo, só estou com um pouco de fominha.”
Aquilo fez meu rosto queimar.
Levantei num salto, tentando recuperar o controle. Troquei a Aelyn, ajeitei o cabelo dela, preparei o café da manhã com a atenção redobrada de quem sabe que está fora de sua forma normal.
"Queria vai comendo que eu vou me trocar, qualquer coisa, é só me chamar que eu vou estar aqui do lado, tá."
"Tudo bem, tia Branca." sorri de lado.
Ela assentiu, ocupada demais com o pão para reclamar.
Saí do quarto e dei de cara com ele.
Cássio vinha pelo corredor, sério como sempre, mas os olhos desceram automaticamente até o meu pijama. O sorriso que surgiu depois foi pequeno, lento… e perigosamente sugestivo.
“Bom dia”, disse, com uma entonação que não tinha nada de inocente.
Meu rosto pegou fogo.
“Bom dia”, respondi rápido demais, passando por ele quase correndo. "Eu... eu perdi a hora... mas a Aelyn já está comendo... e..." ele colocou o dedo sobre meu lábio me impedindo de falar.
"Está tudo bem Branca." ele abaixou a mãos. "Eu sei por que você estava cansada." estreitei os olhos e ele mordeu o lábio.
"Vou me trocar, senhor Ravelli, tenha um bom dia de trabalho."
Entrei no closet como se estivesse fugindo de um incêndio. Tomei um banho curto, quase frio, tentando acalmar o coração que insistia em disparar sem permissão.
"O que aquele homem fez com a minha cabeça? Eu só posso estar ficando louca."
Quando saí, já vestida e recomposta, ele não estava mais lá.
Voltei para a Aelyn.
“Você está doente?”, ela perguntou de repente. “Você nunca dorme até tarde.”
Sorri, ajeitando o prato dela.
“Não. Só… não dormi bem.”
“Teve pesadelo?”
A imagem dele, o tom da voz no meu ouvido, o sorriso no corredor, tudo veio de uma vez.
“Não”, respondi rápido. “Só perdi o sono mesmo. Agora come logo, que o fisioterapeuta chega já já e você nem se trocou. Vai ficar igual eu, de pijama.”
"Mas eu adoro um pijama... se pudesse ficava assim o dia todo." ela cantarolou e eu gargalhei.
"É mais não pode, mocinha." ela riu.
"Vamos fazer uma noite do pijama? Já fizemos o piquenique, agora podemos fazer com pijama. Eu, você e o papai." minha garganta secou.
"Podemos pensar nisso depois. Agora você tem que comer logo.
Ela riu, despreocupada.
Quando terminamos, levei as coisas para a cozinha.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz