Felipe
Trinta semanas.
Eu repetia isso toda manhã antes de abrir os olhos. Antes de me lembrar onde estava, antes de sentir o colchão fino da kitnet, antes de ouvir o barulho do hospital que atravessava a parede como se não houvesse parede.
Trinta semanas. Ela chegou em trinta semanas. É uma vitória.
Era o que a Dra. Helena tinha dito quando os monitores confirmaram. Ela tinha sorrido, um sorriso pequeno, controlado, do tipo que médico dá quando quer transmitir esperança sem fazer promessa, e dito: cada semana é uma vitória, Felipe.
Então eu contava. Acordava e contava.
Vinte e cinco. Vitória.
Vinte e sete. Vitória.
Vinte e nove. Vitória.
Trinta.
Nosso bebê estava cada dia mais próximo e minha mulher lutando bravamente por cada um dos dias deles.
Eu tinha virado uma sombra.
Não de mim mesmo, de alguma versão anterior, de quando eu tinha rotina, de quando eu sabia que horas eram sem olhar o celular, de quando eu dormia mais de três horas seguidas sem acordar com o coração disparado achando que o telefone tinha tocado.
A kitnet que aluguei era a do tamanho de um pensamento. Cama de solteiro, banheiro minúsculo, uma janela que dava pra lateral do hospital. Eu escolhi ela por isso, pela janela. Podia olhar pro prédio e saber que ela estava dentro, que o Pedro estava lá dentro, que se qualquer coisa acontecesse, eu estava a dois minutos a pé.
Tomava banho rápido. Comia quando lembrava. Dormia quando o corpo travava.
O escritório tinha virado outra vida. Passei todos os casos pro Rodrigo e pro Arthur sem conseguir me importar com nenhum deles. Meu pai cobria o que precisava. Meu celular acumulava mensagens que eu lia e não respondia.
O casamento, que era pra ter sido há duas semanas, o vestido já pronto, a cerimônia já confirmada no cartório, o almoço pequeno que Aelyn tinha escolhido porque não queria nada grande, só a família, mas que agora não tinha data.
Ela tinha chorado quando eu disse que a gente ia adiar.
Não de tristeza. De raiva. Aelyn chorava de raiva quando se sentia fraca, eu tinha aprendido isso.
"Eu quero me casar com você", ela disse, as mãos no meu rosto, os olhos molhados e furiosos. Não quero que esse coração idiota me roube isso também.
Eu tinha segurado o rosto dela com as duas mãos e dito: "Vai acontecer. Eu juro, amor. Quando você e o Pedro saírem daqui, a gente casa no dia seguinte."
Ela tinha respirado fundo.
Promete?
Prometo.
Ela acreditou. Ou fingiu acreditar pra me deixar tranquilo, com Aelyn era às vezes difícil distinguir. Ela era boa demais em me proteger do próprio medo dela.
Eu estava no café da recepção, assim que a visita acabou, olhando pro copo de isopor sem beber, quando meu pai ligou.
Atendi no segundo toque.
"Filho. A audiência da Liana é hoje."
Eu fechei os olhos.
Hoje. Claro que é hoje.
"Pai, eu não posso sair daqui."
"Eu sei." A voz dele era calma, mas com aquela firmeza de pai que está te dizendo uma coisa que não quer ter que dizer. "Mas se você não comparecer, o processo caduca. Ela sai limpa. Tudo que documentamos, tudo que provamos, vai embora. E ela cvai continuar fazendo as outras pessoas de idiotas."
Fiquei em silêncio. Eu olhei pela janela da recepção pro corredor que levava à UTI.
"É rápido?"
"Uma hora. Máximo."
Soltei o ar por entre os dentes.
"Me busca em vinte minutos."
Fui até a kitnet e me troquei, voltando ao hospital logo em seguida para vê-la antes de ir.
Aelyn estava recostada nos travesseiros, o monitor cardíaco no ritmo de sempre, os cabelos presos num coque frouxo que Serena tinha feito na manhã anterior. Ela estava lendo alguma coisa no celular e baixou quando me viu entrar.
"Você tá de terno."
"Preciso ir a uma audiência. Uma hora, no máximo. Quer que eu peça para uma das meninas, ou a sua mãe ficar aqui no hospital?"
Ela me olhou.
Não era o olhar de quem vai reclamar. Era o olhar de quem lê tudo que você não está dizendo.
"Não precisa. É o caso da Liana, não é?"
"É ."
Ela assentiu devagar, os olhos escurecendo com aquela raiva quieta que ela guardava pra situações que não podia resolver.
"Vai lá acabar com isso." A voz saiu firme. "E volta logo."
Me inclinei sobre ela, a beijei na testa, depois nos lábios, demoradamente, do jeito que eu beijava quando queria que ela sentisse que eu ia voltar.
"Pode deixar."
Ela segurou meu pulso antes que eu me afastasse completamente.
"Felipe." Eu a olhei. "Acaba com ela." sorri e concordei.
***
O fórum tinha aquele cheiro de papel velho e ar-condicionado que eu associava a um tempo em que minha vida era diferente, quando o meu maior problema era ganhar uma causa difícil, não ficar de pé enquanto o mundo desmoronava.
Liana estava sentada com o padrinho numa cadeira ao lado da porta quando entramos.

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