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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 361

Felipe

Eu não me lembro de andar até a sala de espera.

Lembro das luzes. Do corredor branco que parecia não ter fim. Do barulho dos meus próprios passos que soavam ocos, como se o chão fosse oco, como se eu fosse oco.

Lembro de empurrar a porta.

E de ver todos lá.

Minha mãe levantou primeiro . Meu pai ficou um segundo atrás, o rosto com aquela expressão que eu só tinha visto nele uma vez antes, quando erramos em um julgamento. Branca estava de pé antes que a porta fechasse, as mãos juntas na frente do corpo. Cássio ao lado dela, a mão no ombro dela, segurando os dois. Serena com os olhos já vermelhos. Sophia que veio na minha direção antes que qualquer um conseguisse falar.

"Filho." Minha mãe chegou primeiro. Segurou meu rosto com as duas mãos, me olhando como olhava quando eu era criança e tinha febre. "Como ela está? O que aconteceu? Fala pra mim."

Eu abri a boca.

Nada saiu.

Foi aí que percebi que alguma coisa dentro de mim tinha se partido no corredor. Em algum ponto entre a sala de exames e ali, o mecanismo que eu tinha usado pra me manter de pé durante a corrida, durante a admissão, durante o ECG e os fios e a expressão séria da Dra. Helena, esse mecanismo tinha chegado no limite.

O primeiro soluço veio do fundo do peito e eu não consegui segurar.

Não foram lágrimas silenciosas. Não foi aquele choro contido de homem que tenta manter a compostura. Foi feio. Foi alto. Foi o tipo de choro que vem de um lugar que você não sabia que existia até ser alcançado, os ombros curvando pra dentro, o peito sacudindo, o som saindo quebrado e sem forma.

Sophia me alcançou antes que eu perdesse o equilíbrio.

Ela entrou por baixo do meu braço, os dois dela ao redor da minha cintura, segurando meu peso com aquela força de irmã mais nova que cresce e você não vê. E logo depois veio minha mãe, e o braço do meu pai nas minhas costas, e Branca que apareceu do outro lado sem eu entender quando tinha se movido, e Cássio que ficou atrás de todos com as mãos nos ombros de quem estava na frente, como se estivesse segurando o grupo inteiro de partir.

Viramos uma coisa só no meio daquela sala.

Um amontoado de medo e amor que não cabia dentro de cada um separado e precisava ir pra algum lugar.

"Respira, filho." O meu pai. A voz rouca de um jeito que eu nunca tinha ouvido antes. "Fica calmo."

"A nossa menina é forte", disse Branca, mas a voz dela quebrou no meio da frase e ela não tentou consertar.

Eu chorei com o rosto enterrado no ombro de Sophia, e ela não disse nada, só ficou ali, firme, me segurando, e eu entendi naquele momento o quanto ela tinha crescido e o quanto eu tinha sido cego pra isso.

Depois de um tempo que não soube medir, as palavras começaram a vir. Aos pedaços, entre as respirações.

"Ela acordou com dor no peito." A voz saiu rouca, irreconhecível. "Forte. A médica disse que o coração está em rejeição aguda. Que a gravidez está sobrecarregando o transplante além do que ele consegue suportar."

O silêncio que se instalou foi diferente dos outros.

Era o silêncio de pessoas que estavam processando uma informação que não queriam que fosse real.

Branca ficou completamente imóvel.

Cássio fechou os olhos por um segundo.

Minha mãe apertou meu braço com uma força que ia deixar marca, e eu não me importei.

"O que eles vão fazer?" A voz de Branca saiu pequena. Ela que eu nunca tinha visto pequena. "O que eles vão fazer com a minha filha, Felipe?"

Eu engoli em seco.

"Estão fazendo exames. Monitoramento. A Dra. Helena é a melhor que existe no estado pra esse caso. Mas..." Parei. Forcei a continuar. "Meu medo é o Pedro. Ele só tem vinte e quatro semanas. Se o coração dela não responder ao tratamento, eles podem ter que fazer uma escolha." Minha voz falhou completamente na última palavra. "E vinte e quatro semanas é cedo demais. É cedo demais pra ele sobreviver lá fora sem sequelas."

Serena colocou a mão na boca.

Sophia apertou minha mão tão forte que os ossos doeram.

Ninguém falou por um tempo longo. O barulho do hospital continuava do lado de fora da porta, passos, rodas de maca, o bip distante de algum monitor, e aquele barulho normal parecia de outro mundo.

Todos nos sentamos e resolvemos aguardar.

O tempo passou de um jeito que não tem nome. Não devagar, não rápido... pesado. Cada minuto com o peso em meu coração.

Eu me levantava a cada quinze minutos, ia até o balcão da enfermagem, perguntava. A mesma enfermeira, que a essa altura já me reconhecia, me devolvia a mesma resposta com uma paciência que eu sabia que era treinada, mas que mesmo assim agradecia.

"Ainda em exames. A médica fala com o senhor assim que tiver resultado."

Na quinta vez, ela acrescentou:

"O senhor quer água?"

Eu disse que não. Voltei e sentei. Meu pai colocou a mão no meu joelho e deixou ali sem dizer nada, e aquele gesto simples, quieto, de pai que não tem palavras, mas tem presença, me destravou de um jeito diferente.

Rangel chegou quando o relógio da sala marcava quase quatro da manhã.

Ainda de uniforme. Direto do plantão, eu soube pelo jeito que ele entrou, aquela combinação específica de cansaço e adrenalina que eu reconhecia porque eu mesmo tinha vivido centenas de vezes. Ele atravessou a sala, veio até mim, e me abraçou sem dizer nada.

Sem como ela está, sem o que aconteceu, sem nenhuma das perguntas que todo mundo faz porque não sabe o que fazer com o silêncio.

Só abraçou.

Eu segurei o abraço dele por mais tempo do que ia admitir depois.

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