Felipe
Eu não me lembro de sair do carro.
Meu pai deve ter parado. Eu devo ter aberto a porta. Meus pés devem ter tocado o asfalto. Mas na memória, na memória que ficou daquele momento, existe só o corredor.
Branco. Longo. Com aquele cheiro de hospital que eu tinha aprendido a odiar nas últimas semanas e que agora associava com ela, com o Pedro, com tudo que eu tinha de mais importante no mundo dentro de quatro paredes.
Eu corri.
Não era uma corrida de quem sabe pra onde vai. Era uma corrida de quem não consegue ficar parado.
Quando virei a esquina da maternidade e vi toda a família já na sala de espera, minha mãe de pé, as mãos juntas, o pai dela, Branca com a expressão que eu nunca quero ver no rosto dela de novo, Serena abraçada a Sophia, Rangel parado com aquela expressão de homem que quer resolver e não tem o que fazer, alguma coisa no meu peito apertou de um jeito que não era só medo.
Era a percepção de que isso era real.
Que eu não tinha acordado ainda.
Eles se levantaram quando me viram, mas eu não parei. Não tinha como parar.
"Onde ela está?"
A enfermeira me guiou. Corredor, porta, sala de troca. Coloquei a roupa cirúrgica com as mãos que não eram mais minhas, tremiam tanto que eu não conseguia amarrar as tiras, tentei três vezes, desisti na terceira e deixei frouxo, não importava, nada importava, exceto chegar até ela.
A Dra. Helena apareceu na porta já paramentada. O rosto dela era aquele, o rosto profissional que ela colocava quando as coisas eram sérias e ela precisava que eu ficasse de pé.
"A bolsa rompeu espontaneamente. Não tínhamos como prever. Vamos fazer cesariana de emergência agora."
"O coração dela..."
"Estamos monitorando. Tem equipe cardíaca de prontidão, equipe neonatal completa. Felipe." Ela esperou até eu olhar pra ela de verdade. "Eu preciso que você entre nessa sala inteiro. Ela precisa ver você."
Inteiro.
Eu não me sentia inteiro fazia semanas.
Mas assenti.
A sala cirúrgica era fria e cheia de luz demais e barulho de monitores que eu já sabia ler, mesmo sem querer saber.
Aelyn estava deitada na maca, os braços presos ao lado do corpo, a barriga exposta sob o campo cirúrgico, os olhos procurando a porta.
Procurando por mim.
Quando me viu, o rosto dela desmoronou, não de fraqueza, mas daquele jeito específico de quando você segurou tudo sozinho por muito tempo e finalmente chegou alguém que podia dividir o peso.
"Fê."
Meu nome na voz dela. Partido ao meio.
Eu cheguei ao lado dela antes que meus pés precisassem de instrução. Me sentei, peguei a mão dela com as duas mãos, beijei a testa dela, o cabelo, a têmpora, rápido, repetido, como se eu pudesse transferir alguma coisa pelo contato.
"Tô aqui. Tô aqui."
Ela chorava sem fazer barulho, as lágrimas descendo, os lábios pressionados um no outro, tentando se controlar e não conseguindo.
"É muito cedo, amor." A voz saiu em fiapos. "Ele ainda é tão pequeno. Eu não queria que fosse assim. Eu queria que fosse diferente, queria que ele chegasse quando estivesse pronto, eu tentei, eu fiz tudo que a Helena mandou, tentei ficar quieta, tentei não ter medo..."
"Ei." Eu segurei o rosto dela com as duas mãos, me inclinei até minha testa encostar na dela. "Olha pra mim."
Ela me olhou.
"Você fez tudo certo. Você ouviu. Você ficou. Você lutou todo dia por ele e por você, e eu vi isso, eu estava aqui, eu vi cada dia."
"E se ele não..."
"Não." Falei imediatamente, cortando-a. "O Pedro é seu filho. Ele não vai desistir."
Ela fechou os olhos.
Uma lágrima desceu pela têmpora, sumiu no cabelo.
"Estou com medo", disse ela. Baixo. Só pra mim. "Estou com tanto medo, amor."
Eu engoli o nó.
"Eu também." Não adiantava mentir. Ela sabia ler meu rosto há anos. "Mas você não tá sozinha nesse medo. Tô sentado aqui do lado, segurando sua mão, e não vou soltar. Tá bem?"
Ela abriu os olhos.
Me olhou daquele jeito, aquele jeito que ela tinha que me fazia sentir que eu era necessário no mundo de um jeito que nenhuma conquista profissional jamais tinha me feito sentir.
Ela assentiu e apertou minha mão.
Os médicos trabalhavam do outro lado do campo cirúrgico com aquela eficiência silenciosa que eu aprendi a respeitar e temer ao mesmo tempo. Eu não olhava. Ficava olhando pro rosto dela. Murmurando. Qualquer coisa: que eu a amava, que o Pedro ia ser lindo, que a gente ia sair dali e ia se casar e ia dormir numa cama de verdade e comer num restaurante de verdade e um dia ia contar essa história pro Pedro como uma das coisas mais difíceis e mais importantes que a gente já viveu.
Ela ficava me ouvindo com os olhos fechados.
Às vezes apertava minha mão.
Às vezes só respirava.
Vinte minutos.
Os vinte minutos mais longos da minha existência inteira.
E então, num momento que eu não soube identificar porque estava olhando pro rosto dela, veio o som.
Não era o choro que eu esperava. Não era aquele choro de recém-nascido que aparece nos filmes, forte e limpo e imediato. Era pequeno. Fraco. Quase um miado. Mas estava lá.

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