Aelyn
3 meses depois
Acordei sem saber por quê.
Não foi barulho. Não foi sonho. Foi o corpo, aquele instinto antigo, de quando eu tinha seis anos e aprendi cedo demais que existem coisas dentro da gente que podem parar sem avisar.
A dor veio forte.
Não era aguda. Não era o tipo que você grita. Era pior, era uma pressão surda, profunda, como se alguém tivesse colocado a palma da mão no centro do meu peito e estivesse empurrando devagar para dentro. Cada batida do coração chegava com peso. Cada respiração terminava curta demais, como se o ar não estivesse cabendo.
Tentei me sentar.
O quarto girou.
Minha mão foi pra barriga antes de qualquer outro pensamento. Automático. Seis meses. Meu Pedro estava lá, eu senti um chute fraco, diferente dos outros, sem a força habitual, como se ele também soubesse que algo não estava certo.
"Fê."
A voz saiu pequena. Quase não era voz.
Felipe acordou como se não tivesse dormindo de verdade, instantâneo, os olhos já abertos, já no meu rosto.
"Lyn." Ele se sentou. Leu minha expressão. E o rosto dele mudou numa fração de segundo, da confusão do sono para um pânico que ele tentou imediatamente esconder e não conseguiu. "O que foi? O que tá acontecendo?"
"Meu peito." Eu pressionei a mão contra ele, como se pudesse segurar a dor do lado de fora. "Tá doendo. Muito."
Ele não falou nada.
Se levantou.
Em dez segundos estava vestido. Em quinze estava do meu lado da cama, me pegando no colo com aquela força que eu às vezes esquecia que ele tinha, me levantou do colchão como se eu não pesasse nada, como se o peso do mundo todo não estivesse naquele momento, e saiu do quarto.
Eu me agarrei ao pescoço dele.
Senti o coração dele batendo forte contra o meu rosto. Acelerado. Descontrolado.
Ele estava apavorado.
"Calma, amor." A voz dele saiu firme. Mentira bem-intencionada. "Tô aqui. Tô com você. Vamos pro hospital agora. Vai ficar tudo bem."
Vai ficar tudo bem.
Ele dizia pra mim ou pra ele mesmo?
O carro arrancou antes que o cinto estivesse travado.
Ele me deitou no banco do passageiro, inclinou o encosto, ajustou o cinto ao redor da barriga com mãos que tremiam, eu vi, mesmo no escuro, eu vi e fechou a porta com cuidado excessivo, como se eu fosse quebrável.
Voltou pro lado dele. Deu partida.
"Respira devagar pra mim. Inspira. Isso. Expira. Fica nisso, tá? Só nisso."
Eu tentei.
O ar entrava pela metade.
Pelas ruas quase vazias da madrugada, ele dirigiu como quem está fugindo de alguma coisa. No semáforo vermelho, ele reduziu, olhou, passou. Na rotatória, ele não esperou. O carro cortava a noite com uma urgência que não precisava de palavras.
Eu ficava com a mão na barriga, sentindo o Pedro.
Chuta. Por favor, chuta, meu amor.
Um movimento fraco. Quase imperceptível.
"Ele tá se mexendo", murmurei.
"Que bom." A voz de Felipe quebrou no meio da palavra. Ele limpou o rosto com as costas da mão sem tirar o olho da rua. "Que bom, amor."
"Fê."
"Não fala nada Aelyn, descansa, nós já estamos cheagando."
"Eu preciso falar." Eu me virei o quanto consegui pra olhar pro perfil dele, a mandíbula travada, os nós dos dedos brancos no volante, a veia no pescoço pulsando. "Olha pra mim."
"Eu tô dirigindo."
"Um segundo."
Ele me deu um segundo. Os olhos escuros me encontraram de relance, e o que eu vi ali me apertou mais do que a dor no peito.
Era terror puro.
"Eu tô aqui", disse eu.
Ele assentiu. Voltou os olhos pra rua. Apertou mais o volante.
"Eu e o Pedro estamos aqui." vi ele engolir em seco, e sabia que ele só ficaria tranquilo, quando estivéssemos dentro do hospital.
***
A entrada da emergência apareceu na curva e ele subiu na calçada sem hesitar, parou o carro torto, saiu antes do motor morrer completamente.
"Ajuda!" A voz dele encheu o corredor de entrada. "Por favor! Ela é transplantada cardíaca, grávida de seis meses, dor no peito há pelo menos vinte minutos!"
Dois enfermeiros vieram com a maca. Felipe me transferiu com aquela eficiência desesperada de quem está controlando o pânico, colocou-me com cuidado, ajeitou meu cabelo do rosto por um reflexo que provavelmente ele nem percebeu, e então agarrou a barra da maca e foi junto.
"Aelyn Ravelli. Transplante cardíaco aos seis anos de idade. Gravidez de alto risco, acompanhamento com a Dra. Helena Vargas. Histórico de rejeição aos dezessete. Ela tá com pressão, saturação. Alguém verifica a saturação agora..." ele dizia como um médico, como açguém que tinha decorado uma ficha para informar aos outros sobre o caso do paciente.
"Senhor, o senhor precisa..."

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