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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 359

Aelyn

As vezes eu olhava para o Felipe e pensava: "Esse homem..."

Não de raiva. Não por frustração, embora nos últimos anos tivesse havido muita dela. Era aquele pensamento que vem quando você olha pra alguém e entende, sem precisar de palavras, que você acertou. Que no meio de tudo que podia ter dado errado, isso aqui deu certo.

Ele estava do meu lado no sofá, o braço pesado e quente ao redor dos meus ombros, a mão grande espalmada na minha barriga com aquela delicadeza específica de pai novo, a delicadeza de quem ainda não acredita completamente que é real, então toca devagar, como se precisasse confirmar.

Eu cobri a mão dele com a minha.

Ele me olhou de lado e sorriu sem dizer nada.

Não precisava.

A sala estava cheia daquele tipo de barulho bom, o tipo que você só percebe que sente falta quando todos vão embora. Sophia e Serena estavam conversando animadas sobre algo, e Felipe e Rangel se analisavam, como se a confiança que existia antes, tivesse que voltar a ser construída.

Não era um sentimento ruim. Era um amadurecimento.

Algo que todos nós precisávamos e não sabíamos.

Felipe, mais do que todos os outros, precisava aprender a largar. Aprender a deixar que as coisas acontecessem no tempo delas e que ele não conseguiria ter o controle de tudo. Ele era apenas um homem, que amava demais, sentia demais, e que agora precisava deixar que outra pessoa fizesse aquilo por ele.

A tempestade da cozinha tinha passado. O ar estava limpo. Felipe ainda tinha aquela tensão residual nos ombros, mas eu via ele tentando, conscientemente, não deixar ela virar palavras.

Eu o amava por isso.

Ele pigarreou.

Todos olharam.

"Agora que está tudo esclarecido." Ele passou os olhos pela sala com aquele ar de pai de família que ele nem sabia que tinha desenvolvido. "Queria combinar uma coisa."

"Ai, ai", murmurou Serena, "Lá vem coisa..."

Felipe a ignorou com maestria.

"Sem segredinhos. Por favor. Eu vou ser pai, tenho um filho chegando, eu já tenho stress suficiente pro resto da vida. Se tem coisa acontecendo, qualquer coisa, me digam logo de uma vez. De preferência, antes que eu descubra em flagrante na minha cozinha."

Rangel tossiu. Sophia olhou pro teto. Eu mordi o lábio.

Então eu olhei pra Sophia. Sophia olhou pra mim. Nós duas olhamos pra Serena ao mesmo tempo.

Serena sentiu os olhares. Ergueu a sobrancelha.

"O que foi?"

Eu não aguentei.

"Quando você vai apresentar o seu pra ele?"

O silêncio durou exatamente dois segundos.

Felipe se virou pra Serena como se o pescoço fosse mola.

"Você também?"

A sala desabou em risada. Serena bufou, jogou uma almofada no meu colo como se fosse uma declaração de guerra, e cruzou os braços com toda a dignidade que ainda tinha, que não era muita.

"Oxi, o que vocês estavam esperando? Que eu fosse freira? É claro que eu fico com uns caras por aí. Eu hein, Felipe."

"Fico com uns caras por aí", repetiu Felipe, a voz subindo uma oitava. "Plural? São vários?"

"Atualmente, um."

"Atualmente!"

"Felipe." Eu apertei o braço dele com carinho e autoridade simultâneos, que é uma habilidade que eu tinha desenvolvido com a gestação. "Respira."

Ele respirou. Visivelmente forçado, mas respirou.

Sophia cutucou a prima com o cotovelo, os olhos brilhando de maldade afetiva.

"Mas o Guilherme é só um cara? Porque você ficou bem corada quando ele mandou mensagem ontem."

Serena apontou o dedo pra ela.

"Você prometeu que não ia falar."

"Eu prometi não contar. Eu só confirmei."

"Isso é a mesma coisa!"

"É completamente diferente, na verdade..."

Rangel, que estava sentado no chão ao lado de Sophia com os dedos entrelaçados nos dela de um jeito tão natural que claramente já era hábito, se inclinou pra frente com um sorriso que eu reconheci, o sorriso de delegado farejando informação.

"Guilherme, do que...?"

Sophia abriu a boca. Serena apontou o dedo pra ela de novo.

"Não ouse."

Sophia fechou a boca. Olhou para o namorado como se pedisse desculpas.

Felipe, que tinha ficado quieto processando o nome, de repente assentou no sofá com aquela expressão de quem acabou de resolver uma equação.

Como se invocado, o celular dela começou a vibrar e ela o pegou e saiu da sala para atender.

"De onde eles se conhecem?" Felipe questionou.

"Do fórum." Sophia falou tranquila.

"Guilherme Rossi?" Rangel questionou, e eu e a Sophia ficamos de boca aberta.

"Como você descobriu tão rápido?" Sophia falou e ele riu.

"É o único Guilherme que trabalha no fórum."

"É, to começando a achar, que vai ser bom ter você na família." Felipe falou para o Rangel e deu risada, concordando.

Quando Serena voltou, todos os olhos estavam virados para ela.

"O que foi?" questionou.

"Gulherme Rossi, é?"

Serena fechou os olhos com o sofrimento de quem sabe que acabou.

"Quem contou?"

Ninguém, o Rangel só deduziu, depois que falamos que ele trabalhava no fórum."

"Chega." Serena tapou o rosto com as duas mãos. "Já deu, tá? Estamos ficando e está tudo ok, não precisam se intrometer."

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