Cássio
A casa estava silenciosa demais.
Não o tipo de silêncio que traz paz. Era outro. Um silêncio deslocado, fora do lugar, como se algo estivesse acontecendo sem mim. Larguei as chaves sobre o aparador e caminhei pelo corredor.
Avancei pelo corredor e nem os barulhos das maquinas do quarto de minha filha estavam funcionando. Quando parei em frente a porta de vidro, não havia ninguém lá. Apenas a cobertas reviradas, como se ela tivesse saído correndo.
Não quis entrar em pânico, mas o medo de que algo tivesse acontecido com a minha filha me acertou. Caminhei rápido até a cozinha, rezando para que elas estivessem ali.
"Glória?" chamei.
Ela estava perto da pia, enxugando as mãos num pano.
"Onde estão a Aelyn e a Branca? Aconteceu alguma coisa com a minha filha e vocês não me avisaram?"
Ela sorriu, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo.
"Claro que não, né, senhor. Se tivesse acontecido, eu seria a primeira a te avisar, porque aquela mulher me dá nos nervos e eu não confio nela."
"Tá, e onde elas estão?" aquilo estava me irritando ainda mais.
"Fazendo um piquenique."
Franzi o cenho.
"Um quê?"
"Um piquenique", repetiu. "Aelyn quase me deixou doida com os pedidos."
"Com esse tempo?" perguntei, olhando para o céu escuro do lado de fora. O vento estava forte, e a chuva ameaçando a cair.
Bufei antes mesmo de ouvir a resposta e segui em direção à sala que dava acesso ao jardim.
Foi então que vi.
A porta de vidro fechada separava a sala do jardim cinza e molhado. Do lado de dentro, sobre o tapete, havia uma toalha xadrez estendida com cuidado. Pequenos potes com frutas cortadas, biscoitos que eu sabia que minha filha adorava, sanduíches feitos do jeito exato que ela gostava. Uma jarra de suco no meio.
E elas.
Aelyn sentada, olhando para fora, rindo sozinha.
"O tempo feio achou mesmo que eu ia desistir", ela disse, divertida.
Branca sorriu.
Um sorriso diferente.
Livre. Verdadeiro. Nada parecido com os sorrisos contidos e educados que ela me oferecia nos últimos dias.
Meu peito apertou sem aviso.
"Você é muito persistente, mocinha. Tem a quem puxar." minha filha gargalhou.
"Mas eu não esqueci a promessa. Quando o tempo estiver lindo, vamos fazer outro. Só que lá fora."
"Sim, quando você receber todas as altas, e o tempo estiver gostoso, nem chuvoso, nem um calorão." ela concordou mexendo nos potes e então me viu.
"Papai, finalmente!" Aelyn se virou ao me ver. "Eu estava esperando você chegar pra comer com a gente."
Branca abaixou os olhos, o sorriso diminuindo, como se tivesse sido pega fazendo algo que não devia.
Aproximei-me.
Tirei o blazer, deixei sobre o sofá e me abaixei quando vi minha filha se levantar devagar e caminhar até mim.
"Ei, princesa", falei, abraçando-a com cuidado. "Não está fazendo esforço demais, está?"
Ela negou com a cabeça.
"O fisioterapeuta deixou eu voltar a caminhar. Só não posso correr ainda."
Olhei para Branca.

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