Branca
A cozinha estava escura demais.
Glória já tinha ido embora, e o silêncio ali dentro parecia diferente do resto da casa. Abri uma gaveta, depois outra, tateando no escuro, tentando lembrar onde ficavam as velas. Segurar a lanterna do celular enquanto procurava não ajudava muito. A luz tremia, escorregava pelas superfícies, e eu já começava a ficar irritada.
"Ah não." A bateria do celular começou a piscar vermelho e o logo da empresa apareceu.
“Claro que tinha que acabar agora”, murmurei, quando a tela apagou de vez.
Bufei, segurando o celular inútil na mão.
Foi então que um feixe de luz surgiu atrás de mim, firme, claro, iluminando exatamente onde eu estava.
Virei o rosto.
Cássio estava ali, com a Aelyn no colo, usando o próprio celular para clarear a cozinha.
"Parece que precisa de uma ajudinha extra." ele falou e sorriu de uma forma tranquila, muito diferente daquele homem turrão de sempre.
“Obrigada”, falei baixo, me virando para ele não ver o sorriso bobo que se espalhou pelo meu rosto.
Abri mais uma gaveta, estiquei o braço até o fundo de um armário e senti o relevo conhecido do pacote de velas.
"Achei." Aelyn bateu palmas, animada.
Peguei uma xícara qualquer no armário de cima, coloquei a vela dentro e a acendi com cuidado. A chama pequena tremulou, mas logo se firmou, lançando sombras grandes nas paredes.
Aelyn desceu do colo do pai com cuidado e arregalou os olhos.
“Dá pra brincar de animais na sombra!”, disse, já nos olhando com expectativa.
Nós dois rimos ao mesmo tempo.
Ela se posicionou em frente à parede e começou a moldar figuras com as mãos. Um cachorro torto. Um coelho que parecia mais um dinossauro. Um bicho indefinido com três cabeças.
“O que é isso?”, perguntei, rindo.
“Um unicórnio”, ela respondeu, muito séria.
Olhei para Cássio.
Ele parecia completamente concentrado, tentando imitar alguma coisa que claramente não funcionava.
Aquilo me arrancou uma risada solta, daquelas que saem antes da gente pensar.
“Continua tentando”, provoquei. “Uma hora sai.”
Ele me lançou um olhar rápido, quase desesperado, e voltou a tentar, arrancando gargalhadas da Aelyn.
O clima ficou leve. Gostoso. Quase normal.
As sombras dançavam nas paredes, a chuva batia do lado de fora, e por alguns minutos nada mais existia além daquela pequena cena improvisada no escuro.
Até que Aelyn bocejou.



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