Cássio
André estava diferente.
Mais fechado. Menos provocador. Como se o peso de tudo tivesse decidido sentar nos ombros dele de uma vez. E, de alguma forma, eu sabia que parte daquela tensão vinha dirigida a mim.
Não me importei.
Se ele precisava de um culpado para continuar em pé, eu podia ser esse alvo. Já tive papéis piores.
Sentei-me em frente a ele, apoiando os cotovelos na mesa.
"Por que você não me disse que era um dos Krieger?"
Ele se inclinou na cadeira, cruzando os braços, o olhar afiado.
"Não tinha por que dizer." Deu de ombros. "Eu não imaginava que você conhecia a minha irmã." Fez uma pausa curta. "E estou tentado a dizer que conhece bem demais. E eu não gosto disso."
O maxilar dele travou.
Eu respirei fundo.
Não ia entrar nesse terreno. Não com ele. Acima de tudo, André era uma das poucas pessoas que eu confiava e respeitava.
Nunca falaria sobre o que aconteceu entre mim e a Branca. Nem uma palavra. Aquilo precisava morrer ali, pelo menos da minha parte. Ela já tinha deixado claro que não sentia nada além do necessário para continuar funcionando. E eu não seria o idiota que reabria uma ferida que ela claramente tinha fechado.
"Conheço por ser o patrão dela", respondi, com calma medida. "Conheço o suficiente."
André socou a mesa.
"Não mente pra mim, porra." A voz saiu baixa, mas carregada. "Eu vi como você olhou pra ela. E vi o ciúme quando você ainda não sabia exatamente o que éramos."
Levantei o olhar devagar.
"Você está vendo coisas", falei. "A única coisa que espero da sua irmã é que seja o suporte emocional da minha filha." Fiz uma pausa. "Assim que a rotina da Aelyn voltar ao normal, eu a devolvo pra você."
André bufou, passando a mão pelo rosto.
"Você é um grande filho da puta." Soltou uma risada curta. "Não preciso nem explicar, né?"
"Não", respondi. "Eu não me emociono como você."
Era mentira.
Mas era uma mentira necessária.
"Pra mim", continuei, "meu acordo com a Branca é apenas um negócio. Para de tentar colocar coisa onde não tem. Ela entende isso, mas parece que você está tendo dificuldades."
Ele assentiu, mas não parecia convencido. Estava pilhado. Tenso demais para alguém que dizia aceitar.
"O ideal seria tirá-la logo do país", disse. "Não tem como eu simplesmente ignorar que ela corre perigo." Engoliu seco. "E o jeito como ela fala… como se não se importasse mais em viver."
Aquilo me atingiu de um jeito que eu não demonstrei.
"É justamente por isso que ela fica melhor comigo", respondi. "A Aelyn é um motivo para ela continuar viva."
André fechou os olhos por um segundo. Depois assentiu, ainda rígido.
Levantei-me e caminhei até a janela. O tempo lá fora tinha mudado completamente. Nuvens pesadas se acumulavam, o céu escurecendo rápido demais para aquele horário.

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