Rangel
Eu tinha ensaiado a conversa com o Felipe umas três vezes no caminho até a casa deles.
Sabia exatamente como ia começar. Ia pedir pra falar com ele a sós, ia ser direto, ia explicar que não era passatempo, que eu tinha intenção, que eu sabia a diferença de idade e que não me importava porque com Sophia tudo que importava era o que estava crescendo entre a gente. Ia pedir a bênção dele como homem, como irmão, como amigo de anos.
Tinha um plano.
O plano não sobreviveu nem até a cozinha.
Quando me virei e vi Felipe parado na porta, o maxilar travado, os olhos indo de mim pra ela e voltando, montando um quebra-cabeça que claramente desarmava tudo que ele achava que sabia, eu entendi que o momento tinha chegado antes do que eu queria. Só que agora, sem roteiro, sem hora marcada, sem a vantagem de ter escolhido o terreno.
Tudo bem.
Eu tinha dito a verdade antes sem preparação. Podia fazer de novo.
"Que porra tá acontecendo aqui?"
A voz dele saiu baixa. Controlada demais. Conheço Felipe faz anos, sei que o perigoso não é quando ele grita. É quando ele baixa o tom.
Me virei devagar. Fiquei de frente pra ele sem recuar, sem soltar a mão dela.
Sophia deu um passo pra o lado, não pra trás, não pra se esconder atrás de mim. Pro lado. Ficou ao meu lado, os ombros retos, a voz mais firme do que eu esperava.
"Não estamos fazendo nada de errado."
Felipe a encarou. O maxilar pulsou.
"Sophia, vem aqui."
"Não."
Ele abriu a boca. Fechou. Abriu de novo.
"Ele tem onze anos a mais que você. Você ainda é..."
"Adulta." Ela não deixou terminar. Ergueu o queixo, os olhos verdes fixos nele. "Eu sou adulta, Felipe. Eu sei o que estou fazendo. Eu sei quem ele é."
Ouvi Aelyn e Serena entrarem na cozinha atrás dele, atraídas pela tensão que já tomava o ar como fumaça. Mas eu não tirei os olhos do Felipe.
Sophia respirou fundo. E falou.
"Eu sei que não é como você esperava. Eu sei que parece do nada pra você." A voz dela não tremia mais. Era firme, quente, do tipo que vem de dentro. "Mas eu não escolhi sentir isso. Aconteceu. E o que eu posso te dizer é que ele me trata de um jeito que eu nunca fui tratada. Com atenção. Com cuidado. Com respeito. Ele é o homem mais respeitador que eu já conheci, e eu sei disso não porque ele me disse, eu sei porque eu vi. Eu senti."
Ela parou por um segundo.
"Eu me apaixonei por ele, irmão. Pelo jeito que ele olha quando está ouvindo. Pelo jeito que ele pensa antes de falar. Pela intenção que tem em tudo que faz. Eu sei que você tem medo. Mas eu preciso que você confie em mim."
O peito apertou de um jeito que eu não sabia nomear.
Eu a olhei, esse perfil que eu já estava começando a decorar, a linha do queixo erguido, os olhos que não desviaram, e algo dentro de mim assentou. Com peso. Com certeza.
Dei um passo à frente. Olhei direto pro Felipe.
"Eu ia falar contigo hoje." A voz saiu calma. "Essa era a intenção desde que saí do cinema com ela. Eu queria pedir sua aprovação do jeito certo, no momento certo. Não foi assim que aconteceu, mas o que eu tenho a dizer não muda." Parei por um segundo procurando o cara compreensivo que eu conhecia. "Você me conhece há anos. Você esteve do lado quando o meu namoro desmoronou antes de começar, quando a Manu virou minha vida de cabeça pra baixo, quando eu passei meses tentando me lembrar de como era acordar sem peso. Você me conhece de verdade, Felipe. Então me olha agora e me diz se parece que eu estou brincando."
Ele ficou quieto.
"Sua irmã é a pessoa mais pura que eu já conheci. Pura de um jeito que não é ingenuidade, é algo dela. Ela sabe quem ela é. Sabe o que quer. Não tem jogo, não tem cálculo, não tem máscara." Senti a voz engrossar levemente e não tentei disfarçar. "Eu nunca soube o que era algo assim. Sem tensão, sem medo do que vem depois. Com ela é leve. É presente. É a primeira vez em muito tempo que eu quero o amanhã."
Aelyn segurou o braço do Felipe com cuidado.
Serena cruzou os braços e foi ela quem falou primeiro, a voz cortante, sem cerimônia.
"Sabe o que os caras da nossa idade querem? Transar com todo o grupinho. Dizem que amam e em dois dias já saíram com todas as amigas. O primeiro namorado dela parecia um lord." Ela pausou, e o peso do que vinha a seguir chegou antes das palavras. "Era um babaca. Tinha três namoradas ao mesmo tempo. Você não sabe o quanto ela sofreu."
Eu me virei pra Sophia.
O sorriso dela tinha sumido. Ela estava com os olhos baixos, aquela expressão de quem não queria que esse assunto existisse na conversa.

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