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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 356

Sophia

Eu não precisava de palavras pra saber o que via.

Felipe estava de costas pra mim, as mãos grandes espalmadas na barriga de Aelyn, o rosto enterrado no pescoço dela enquanto ela ria baixinho de algo que ele tinha sussurrado. Ela encostou a cabeça no ombro dele, cobriu as mãos dele com as suas, e ficaram assim, os dois num mundo que tinha paredes invisíveis, mas que eu conseguia sentir mesmo do lado de fora.

Eu fiquei parada no canto do quarto do bebê, segurando uma roupinha de recém-nascido que nem lembrava de ter pegado.

Tinha um aperto no peito. Não era inveja, eu conhecia inveja, e não era aquilo. Era uma saudade estranha de algo que eu ainda não tinha vivido. Uma fome de futuro.

Minha mãe e meu pai eram assim. Minha tia e meu tio também. E agora Felipe e Aelyn.

Amor que fica. Do tipo que você percebe olhando pra uma cena comum, dois adultos parados numa tarde de domingo num quarto de bebê ainda pela metade e mesmo assim sente que aquilo é a coisa mais inteira que já viu.

Saí devagar, sem fazer barulho. Deixei eles dois naquele mundo deles. Eu estava emocionada demais e precisava me acalmar, para não chorar sem motivo algum.

A cozinha estava silenciosa. Abri a geladeira mais pelo gesto do que pela sede, peguei a garrafa de água e fiquei encostada na pia, bebendo devagar. O sorriso ainda estava no meu rosto. Eu nem tentava esconder porque não tinha ninguém pra ver.

Um dia.

Esse pensamento veio sozinho, quieto, sem pedir licença.

Um dia eu quero isso.

Ouvi o passo antes de virar. Pesado, mas sem pressa, eu já tinha aprendido a reconhecer. Rangel apareceu na porta da cozinha, as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans, o olhar passeando pelo ambiente antes de pousar em mim.

Ele tinha esse jeito. De entrar num lugar e ler tudo antes de se mover.

Se aproximou devagar, como se soubesse que eu estava num estado que pedia cuidado. Parou a poucos passos, inclinou a cabeça, e levantou meu queixo com o indicador, um gesto suave, preciso, que me fez parar de respirar por um segundo.

"Tá tudo bem?"

"Sim." Minha voz saiu pequena. Eu limpei a garganta. "É que… fiquei olhando pra eles. Felipe e Aelyn. E deu esse aperto, sabe? Uma felicidade. Uma emoção que não deu pra controlar."

Ele não riu. Não chamou de besteira. Só me olhou com aquela atenção densa que ele tinha, o tipo que faz a gente sentir que o que diz importa de verdade.

"Não é besteira nenhuma." O polegar se moveu, roçando a minha bochecha com uma leveza que não combinava com o tamanho da mão dele. "Ver uma família começando é uma das coisas mais bonitas que existem. Me faz pensar em como a vida pode ser boa quando a gente acerta."

Eu me inclinei sem pensar. Pousei o rosto na palma da mão dele.

Ele não tirou a mão.

Ficamos assim por um momento que não teve duração, desses que você não consegue medir porque não quer.

"Você pensa em ter filhos?", perguntou ele. A voz mais baixa agora. Mais íntima.

"Sim." Não precisei pensar. "Mas não agora. Quero me formar, trabalhar, viajar. Curtir um tempo sendo só eu." esperei para ver a reação dele. "Mas sim. Quero uma família. Do jeito que os meus pais têm. Do jeito que o Felipe e a Aelyn estão construindo."

Ele concordou, devagar.

"Eu também." Os olhos dele foram pra algum ponto além de mim por um segundo, aquele lugar onde as pessoas guardam as coisas que não dizem sempre. "Quando você trabalha com o que eu trabalho, você para de achar que o tempo é infinito. Você vê o que a pressa faz com as pessoas. O que o ciúme faz. O que a falta de atenção faz." Ele voltou a olhar para mim. "No final, o que sobra é o que a gente construiu com cuidado. Todo o resto vai embora."

Algo naquelas palavras me pegou no meio do peito.

Não era discurso. Era convicção. Do tipo que vem de quem já viu o avesso das coisas e voltou com opinião formada.

"Você já pensou nisso muito", disse eu.

"Já." Um canto da boca subiu. "Você é a primeira pessoa em muito tempo que me faz querer falar sobre isso."

O peito apertou de um jeito diferente agora.

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