Rangel
Parei o carro na frente da casa dela e desliguei o motor.
Não havia motivo lógico pra isso. Ela morava ali, a noite tinha terminado, eu tinha que ir embora. Mas eu desliguei o motor mesmo assim e fiquei.
Sophia também ficou. Sem perguntar por quê. O silêncio dentro do carro era daqueles que não pedem pra ser preenchidos, era denso, quente, carregado de tudo que não foi dito durante o filme.
A luz do poste entrava pela janela e iluminava os detalhes dela: o brilho suave do cabelo escovado, a linha delicada do pescoço, a barra do vestidinho preto subindo um pouco na coxa. Eu fingi não notar a noite inteira. Mas notei. Cada vez que ela cruzava as pernas, cada vez que ria de alguma cena, cada vez que o braço dela roçava no meu.
Eu tinha notado tudo.
"Foi uma boa noite", disse ela, sem me olhar diretamente.
"Foi."
"O filme foi péssimo."
Eu ri baixo.
"Horrível."
Ela finalmente virou o rosto pra mim. Quando nossos olhos se encontraram, o ar mudou de consistência. O carro pareceu menor. O espaço entre nós, perigoso.
Tem mulher que você olha e entende tudo de uma vez. Sophia não era assim. Ela era do tipo que quanto mais você olhava, mais encontrava. E eu tinha passado a noite inteira olhando, procurando, descobrindo.
Me inclinei devagar. Dei tempo pra ela recuar se quisesse.
Ela não recuou.
O beijo foi quase uma pergunta. Leve. Contido. Os lábios dela responderam com uma cautela que me pegou de surpresa, como se ela também estivesse tentando não exagerar. Mas quando eu aprofundei, ela largou a contenção. Segurou minha camisa com as duas mãos e veio. A língua dela roçou na minha, quente, curiosa, e eu soltei um som baixo que não planejei.
Segurei o rosto dela com uma mão. Senti o perfume dela, algo floral misturado com ela mesma e tive que me conter pra não puxar ela pro meu colo ali mesmo.
Não era o momento.
Quando nos afastamos, os dois estávamos respirando diferente. Ela mordeu o lábio inferior, os olhos verdes brilhando sob a luz fraca.
"Posso te ver de novo?", perguntei. A voz saiu mais rouca do que eu queria.
Ela sorriu, aquele sorriso tímido que ela achava que escondia alguma coisa, mas na verdade entregava tudo.
"Sim." Uma pausa. "Mas antes eu preciso te perguntar uma coisa."
"Pode perguntar o que quiser, Sophi."
"Não tem mais nada entre você e a Manu? De verdade?"
Eu soube na hora.
"Ela te encurralou no banheiro, não foi? Eu achei ter visto ela entrando pelo outro lado."
Sophia assentiu, soltando o ar devagar.

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