Sophia
Saímos do cinema de mãos dadas.
Eu mal conseguia respirar.
A mão dele era grande, quente, firme ao redor da minha, e eu tentava andar normalmente enquanto meu coração arrombava o meu peito. Borboletas? Não. Era um incêndio no estômago. Era o tipo de coisa que você passa anos fingindo que não quer e, quando acontece de verdade, você quase não sabe como suportar.
Ele está segurando minha mão. Na frente de todo mundo. Como se eu fosse dele.
Rangel me puxou mais perto sem avisar, passando o braço pelo meu ombro com uma naturalidade que me matou por dentro. Eu me encostei nele, no calor do corpo dele, no cheiro que eu sabia que ia ficar marcado na memória por muito tempo e sorri como uma idiota completa.
"Você gostou do filme?", perguntou ele. A voz grave. Perto demais do meu ouvido.
"Gostei." respirei fundo antes de continuar. "Principalmente das partes em que eu não prestei atenção."
Ele parou de andar.
Me olhou de um jeito que eu senti no estômago.
"Você não prestou atenção em quê, exatamente?"
"Em nada", admiti. "Fiquei o filme inteiro pensando em outras coisas."
Ele ficou quieto por um segundo. Aquele tipo de silêncio que não é vazio, é cheio. Cheio de alguma coisa que os dois fingiam não estar sentindo faz tempo.
Então ele me puxou pela mão, devagar, sem pressa, como se tivesse o mundo. Me trouxe pra perto até eu sentir o calor do corpo dele contra o meu. A mão dele subiu pelo meu rosto, dois dedos apenas, levantando meu queixo.
Ele me olhou por um segundo antes de tocar.
Só um segundo. Mas foi longo o suficiente pra eu entender o que ia acontecer e não desviar.
O beijo foi suave. Firme. Dele. Do jeito que tudo que ele fazia parecia vir de um lugar de certeza que eu ainda estava aprendendo a ter. Eu fechei os olhos e segurei o lapso do casaco dele porque precisava segurar em alguma coisa.
Quando a gente se separou, ele não se afastou.
Ele ficou ali, testa quase encostando na minha, respiração misturada.
"A gente pode repetir isso", disse ele baixinho. "Quantas vezes você quiser."
Eu abri os olhos.
E ele sorriu primeiro, um sorriso lento, que chegou aos olhos, aquele tipo que homem nenhum ensaia.
Lá dentro, o escuro do cinema tinha escondido tudo. Mas ali, na luz do corredor, eu conseguia ver cada detalhe dele. A linha da mandíbula. A pequena marca perto do canto do olho. O jeito que ele me olhava, como se eu fosse uma resposta que ele não esperava encontrar.
Voltamos a caminhar, e ao chegar perto dos banheiros e eu parei, envergonhada de uma forma que não fazia sentido.
"Preciso ir no banheiro rapidinho."
Ele soltou meu ombro devagar, como se não quisesse. Me olhou com um sorriso que eu senti na espinha.
"Te espero aqui." Concordei e fui tentando me conter para não saltitar até lá.
Dentro do banheiro, me olhei no espelho e não reconheci a mulher que me encarava.
As bochechas rosadas. Os olhos brilhando. Um sorriso idiota que eu tentava conter e não conseguia.
Isso tá acontecendo de verdade.
Lavei as mãos. Respirei. Tentei me recompor.
E então a porta abriu.
Manu encostou na pia com os braços cruzados, me encarando pelo reflexo do espelho. O olhar dela era de quem tem um discurso pronto e acabou de achar a pessoa certa para ouvir.
"Oi, Manu."
Tentei manter a voz no lugar. Fui lavar as mãos de novo, qualquer coisa para não olhar pra ela de frente.
"É, eu sempre desconfiei que você tinha uma queda por ele."
O coração parou. Por um segundo, só um, eu senti o chão ceder.

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