Rangel
Manu estava encostada na porta da minha casa, braços cruzados, olhando pra mim como se ainda tivesse todo o direito de estar ali.
O sorriso morreu no mesmo instante.
Desci devagar, fechei a porta e fiquei parado a dois metros dela. Não me aproximei. Aprendi há muito tempo que aproximação com Manu vira convite para drama.
"O que você tá fazendo aqui?"
"Temos que conversar."
Eu bufei, passando a mão no cabelo.
"Como você entrou na minha casa, Manu?"
Ela ergueu a chave entre dois dedos, balançando com aquela calma falsa que eu conhecia tão bem.
"Eu tenho a chave. Você me deu, esqueceu?"
"Eu pedi de volta. Várias vezes. Você nunca devolveu." Minha voz saiu fria, controlada. "Nunca imaginei que você seria capaz de usar isso pra invadir a minha casa."
"Eu não invadi." O tom dela ficou defensivo na hora. "Só queria conversar e você demorou. Me encostei aqui. Não fui para dentro. Não precisa desse drama todo. Não é como se eu fosse uma desconhecida."
Não invadiu. Como se isso fosse uma grande virtude.
Eu me lembrava muito bem de todas as crises de ciúmes dela. Os pratos quebrados, os móveis da sala que pagavam o pato, as noites em que eu chegava em casa e encontrava tudo revirado porque tinha chegado quarenta minutos atrasado de um plantão. Respirei fundo, tentando manter a calma.
"Diz logo o que você quer, Manu. Acho que seu namorado está te esperando."
Ela deu dois passos na minha direção. Os olhos marejados, mas eu já tinha aprendido a não reagir a isso.
"Rangel… você e a… a irmã do Felipe." Ela pausou, como se o nome doesse. "Estão juntos de verdade?"
Eu ri. Não de humor, de incredulidade.
"Você veio até aqui por isso."
"Responde."
"Volta pra sua casa, Manu. Por um acaso eu fui atrás de você quando você começou a namorar? Você não tem mais nada a ver com a minha vida, nem eu com a sua... Cada um seguiu o seu caminho."
"Só responde." A voz dela ficou mais tensa. "É sério entre vocês?"
Dei de ombros, encarando-a sem desviar.
"Quem sabe. Você mesma foi lá avisá-la de que minha rotina é pesada e que ela não vai aguentar. Não foi?"
Ela não se defendeu. Ergueu o queixo.
"Eu só fui falar a verdade que você esconde. Ela pode ser mais calma que eu, mas tenho certeza de que não vai suportar quando perceber que você coloca o trabalho na frente de tudo."
Eu a encarei sério, a irritação crescendo devagar.
"Talvez eu preferisse o trabalho porque o nosso namoro tinha ficado insustentável, Manu. Já pensou nisso?"
Ela pareceu ficar ainda mais irritada, os olhos marejados brilhando.
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