Branca
Eu não soube o que dizer.
As palavras ficaram presas em algum lugar entre o peito e a garganta, pesadas demais para sair. Quando Cássio se inclinou de leve na minha direção, quase como se fosse continuar o que tinha começado, meu corpo reagiu antes da minha cabeça.
Dei um passo para trás.
"Eu… preciso ver a Aelyn", falei rápido demais, como quem se agarra à primeira saída possível.
Ele ficou imóvel por um segundo. Depois assentiu.
"Claro."
Não houve pedido de desculpa. Não houve insistência.
Aquilo me desarmou mais do que qualquer outra coisa.
Passei por ele e saí da sala com o rosto quente, abanando o ar como se estivesse sem oxigênio. O coração batia descompassado, e eu não sabia explicar o que tinha acabado de acontecer.
Por que ele tinha agido daquele jeito? Por que aquela proximidade ainda me desorganizava tanto?
Ele sempre fora distante. Frio. Controlado. Depois da noite em que ficamos, ergueu um muro entre nós, como se aquilo tivesse sido um erro. E agora se aproximava, dizia que ainda pensava, me puxava para perto e recuava, como se nada tivesse acontecido.
Ou talvez fosse eu que tivesse recuado primeiro.
Balancei a cabeça, tentando apagar a cena da minha mente.
Quando entrei no quarto da Aelyn, ela dormia tranquila, abraçada ao travesseiro, o rosto sereno como se o mundo não fosse um lugar perigoso. Fiquei alguns segundos parada, apenas observando, sentindo o nó no peito afrouxar um pouco.
Aproximei-me e me deitei na cama ao lado dela, ainda vestida, exausta demais para pensar direito. O cansaço venceu rápido demais.
Mas o sono não foi gentil.
Sonhei com portas se fechando. Com vozes que eu não conseguia alcançar. Com Pedro me chamando de longe.
Acordei assustada pouco depois das cinco da manhã.
O quarto ainda estava escuro, e o silêncio parecia pesado demais. Levantei devagar, tomei um banho rápido e vesti uma roupa simples. Precisava me manter ocupada. Pensar menos.
Quando cheguei à cozinha, já passava das sete. Glória estava lá, organizando algumas coisas, e eu comecei a preparar o café da manhã da Aelyn quase no automático.
Pão cortado. Suco. Fruta. Tudo nas proporções que a nutricionista pediu, e da forma que era melhor para a menina.
Foi então que senti a presença dele antes mesmo de ouvir a voz.
"Bom dia."
"Bom dia", respondemos quase ao mesmo tempo, eu e Glória.
Cássio parecia… distante. Não rude. Apenas fechado. Como se tivesse erguido o muro ainda mais alto durante a noite.
"Vou ter um dia cheio hoje", ele disse, servindo café para si mesmo. "Só em extrema necessidade quero que liguem pra mim."


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