Sophia
Ele então me olhou com aquela expressão surpresa e perguntou:
"Você tá com 16 anos?"
Eu olhei feio para ele, cruzando os braços.
"Fiz 18 semana passada. Credo, tenho cara de pirralha assim?"
Rangel riu, uma risada grave e gostosa que fez meu estômago revirar. Ele negou com a cabeça, encostando-se na pia ao meu lado.
"Desculpa, eu só não me lembrava direito. Você cresceu mesmo."
Eu dei de ombros, tentando parecer indiferente, mas meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele conseguia ouvir.
"Você e o Fê se afastaram... nunca mais te vi em casa." falei como se não fosse eu que me escondesse.
"Depois que passei no concurso, as coisas se tornaram caóticas. Mas estou começando a conseguir regular."
"Isso é bom..."
"E você já pensou no que vai fazer?" Nego com a cabeça.
"Mas nada na área do direito. Já basta meu pai, minha mãe e meu irmão. Chega..." ele gargalha, e sinto uma coisa tão boa, que não sei explicar.
"Você é delicada, enfrentar a chatice dos processos não parece sua cara." olho para ele que está me observando com atenção, enquanto lavo a louça.
"Penso em arquitetura, ou engenharias. Não é tão delicado assim, mas sei lá... as vezes me pergunto se tenho mesmo que escolher agora."
"Não precisa. Vai por mim, se não tem certeza, dá um tempo para conehcer as profissões mais afundo antes de escolher. Fazer o que não gosta é a pior coisa."
"Você pelo visto ama ser delegado." O sorriso dele se abre e é tão lindo que meu coração acelera ainda mais, se é que é possível.
"Nunca me vi fazendo outra coisa. É mais do que eu imaginava, tanto para o lado bom quanto para o lado ruim." Concordo, e a conversa acaba, me deixando com uma vontade desesperada, de não deixá-lo ir.
"E como está a Manu? Faz tempo que eu não a vejo também."
Eu queria cortar pela raiz aquela loucura que estava acontecendo no meu peito. Trazer a namorada dele para a conversa era seguro. Era terra firme. Era o oposto de olhar para aquele maxilar quadrado, para a barba por fazer, para os olhos negros que pareciam ver através de mim.
Ele ficou em silêncio por um segundo, depois sorriu de lado.
"Nós terminamos tem um ano mais ou menos. Pelo que fiquei sabendo, ela já está com outra pessoa e está bem feliz."
Eu o encarei, chocada.
"Nossa, eu achei que vocês iam se casar."
Ele riu de novo, mas dessa vez o riso tinha um tom mais amargo.
"Um dia eu também pensei. Até que parou de dar certo. Acontece."
Eu concordei, baixando o olhar para os copos que estava arrumando. O silêncio ficou um pouco mais denso. Ele se encostou melhor na pia, o braço roçando de leve no meu.
"E você? Namorando alguém?"
Eu neguei rápido.
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