Sophia
Eu sempre fui apaixonada pelo Rangel.
Desde os 14 anos, quando ele e o Felipe faziam faculdade juntos e apareciam em casa para estudar ou jogar videogame. Ele era 11 anos mais velho, alto, com aquele maxilar quadrado, barba por fazer e uma voz grossa que fazia meu estômago revirar. Tinha um carisma irresistível, ria fácil, tratava todo mundo bem, e sempre tinha uma piada pronta. Eu ficava olhando de longe, como uma idiota, sonhando acordada.
Até que a Manu, namorada dele na época, me pegou olhando. Eu tinha 15 anos. Ela me encurralou no corredor da casa e disse, com aquele tom venenoso: “Para de ficar olhando pro meu namorado, garotinha. Ele não é pra você.” Aquilo me destruiu. Eu chorei escondida no quarto e, a partir daquele dia, me afastei completamente. Me escondia em casa, quando sabia que o Rangel estaria lá. Fingi que não sentia mais nada.
Mas agora, anos depois, ele estava aqui. No quartinho do Pedro, parado ao lado do Felipe, com o mesmo sorriso de sempre, só que mais maduro. Mais homem. Delegado. Ombros largos, camisa social esticada nos braços. Meu coração deu um salto tão forte que eu quase derrubei o ursinho que segurava.
Eu me levantei rápido, tentando disfarçar.
"Vou buscar mais copos e pratos pra mesa."
Saí do quarto quase correndo. Serena veio logo atrás, fechando a porta da cozinha.
"Meu Deus, como ele tá gato, prima do céu! Se você não se apaixonou de novo, eu me apaixonei."
Eu gargalhei, abrindo o armário pra pegar os pratos, mas meu rosto estava queimando.
"Shiu, fala baixo! Vou contar pro Guilherme que você tá dando umas olhadas por aí."
Ela tapou a boca, rindo.
"Shiu! Eu não contei pra ninguém ainda. Não sei… não sei se vai durar. Ele é de momento, você sabe."
Eu a encarei, encostando na bancada.
"Pois é. E olhar não arranca pedaço."
Serena se aproximou, baixando a voz.
"Você não achou que ele tá maior? Mais bombado?"
"Agora ele é delegado, né? Deve estar treinando horrores."
Eu tentei afastar a imagem dele, o maxilar quadrado, a barba por fazer, os olhos negros intensos. Demorei tanto tempo pra esquecer. E agora ele caía de paraquedas na minha frente de novo.
"Se a Manu era ciumenta antes, imagina como não deve estar agora."
"Ela é uma insuportável, isso sim. Ele é um anjo por aturá-la."
Pegamos tudo que precisávamos, pratos, copos, guardanapos, e voltamos para a sala. Coloquei um prato na frente do meu irmão e outro na frente do Rangel. Ele olhou pra mim e sorriu.

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