Branca
André ainda tentou uma última vez.
"Você não precisa provar nada pra ninguém", ele disse, a voz mais baixa agora, cansada. "A gente pode ir. Eu arrumo um lugar, outro país se for preciso. Você não tem que ficar aqui por causa de ninguém."
Balancei a cabeça devagar.
"Eu sei que você pode, irmão." Engoli em seco. "Mas não vou."
Ele me encarou como se estivesse diante de alguém que não reconhecia mais.
"Você sempre foi teimosa", murmurou. "Mas isso aqui não é teimosia. É burrice."
"Eu sei também." Respirei fundo. "Mas pela primeira vez em muito tempo… eu escolhi ficar. Estou cansada de fugir, André. Eu perdi tudo porque fugi. Agora chega."
O silêncio entre nós carregava anos demais.
"Branca..."
"Por favor, André. Me escuta. Eu sei que parece uma sentença de morte, mas não é. Eu só achei onde eu quero ficar. Me entenda também."
"Vou tentar." ele me puxou para um novo abraço e beijou os meus cabelos.
"Quando falar com a mamãe", pedi, sentindo a voz falhar apesar do esforço para mantê-la firme, "diz pra ela que eu a amo. Que penso nela todos os dias."
Os olhos dele se encheram de água.
"Ela nunca deixou de esperar por você", disse. "Nunca."
O abraço ficou ainda mais forte, apertado demais, como se estivesse tentando me proteger de tudo de uma vez. Senti o cheiro familiar, a memória de uma casa que não existia mais.
"Eu te amo", ele disse no meu ouvido. "E eu vou dar um jeito nisso. Nem que seja a última coisa que eu faça."
Assenti, incapaz de responder.
André se afastou, respirou fundo e saiu sem olhar para trás.
Cássio o acompanhou até a porta.
Fiquei sozinha no escritório.
Sentei-me no sofá, o corpo pesado, a cabeça girando. Tudo parecia grande demais. O passado tinha voltado com força total, o futuro era um borrão, e o presente… o presente era uma sala silenciosa demais para o caos que vivia dentro de mim.
Pensei em Pedro, em cada sacrifício feito para mantê-lo vivo. Pensei em Aelyn, que respirava melhor quando eu estava por perto. E pensei em mim, que já não existia como pessoa, apenas como o que sobrou de alguém que quebrou.
A porta se abriu de novo.
Levantei o olhar.
Cássio entrou e fechou atrás de si. Ficamos nos encarando por um instante longo demais para ser confortável.
Eu queria dizer tantas coisas. Explicar melhor. Pedir desculpa. Pedir nada. Mas não sabia nem por onde começar, nem quem eu era naquele momento.
Foi ele quem falou.
"Quero que, a partir de agora, você seja completamente verdadeira comigo."
A voz dele não era dura. Era firme.
"Eu acredito em você. Na sua história." Ele deu um passo à frente. "Mas pra manter o mínimo de equilíbrio aqui em casa, preciso que me conte tudo. O que acontecer. Sem segredos."
Respirei fundo e me levantei.


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