Aelyn
O carro estava parado no estacionamento do shopping, mas nenhum de nós dois tinha saído ainda.
Eu olhava para a frente, processando o beijo na mão que tinha acontecido no semáforo com aquela naturalidade absurda que o Luciano tinha para tudo, e então me virei para ele.
"Por que você fez isso?"
Ele me olhou com aquele sorriso que eu já sabia que precedia alguma coisa que ia fazer sentido e que eu não ia querer admitir que fazia.
"Homens são territorialistas", ele disse, simplesmente. "E por eu ser um e apaixonado por um, sei muito bem como funciona." Cruzou os braços com aquela desenvoltura. "Você pode não ter percebido, mas desde o segundo que ele me viu, todos os instintos dele estão gritando. Ver eu beijar a sua mão?" Levantou as sobrancelhas. "Vai fazer ele surtar."
Eu ri.
Não aquele riso polido de quem acha graça por educação, o outro, o que escapa quando alguma coisa é genuinamente engraçada.
"Você acha mesmo?", eu disse, quando passou. "Eu não sei, Luciano. O Felipe é controlado demais. Reservado demais. Sempre foi assim." Olhei para o para-brisa. "Nunca soube de nenhuma mulher com quem ele ficou ou se relacionou. Ele nunca conta essas coisas."
"E você?"
Eu fiz uma pausa.
"Eu nunca contei pra ele de ninguém que eu tenha ficado porque..." Parei. Recomeçou. "Porque eu achava que estava traindo ele. E isso é ridículo porque ele nem me vê assim. Nunca viu."
O silêncio durou alguns segundos.
O Luciano se virou no banco, e quando eu olhei para ele havia algo diferente na expressão dele, não a leveza de sempre, mas aquela outra camada, a que aparecia quando ele estava sendo completamente sério.
Ele estendeu a mão e segurou o meu queixo com uma gentileza que era completamente fraterna.
"Você criou um conto de fadas nessa linda cabecinha com esse homem", ele disse, devagar, daquele jeito que não é cruel mas não deixa saída. "Ele pode ser tudo que você imaginou. Como pode não ser." Soltou o queixo. "Mas não adianta mais sofrer sem saber. Hoje você vai ter sua prova. Vai saber se vale a pena insistir nesse projeto de romance."
Eu o encarei.
"Mas te digo uma coisa com propriedade." Ele me olhou direto. "Ele está com ciúme."
"Como você sabe?"
O canto da boca dele subiu.
"Porque ele está prestes a invadir esse carro e acabar com a minha vida."
Eu abri a boca para responder.
E então ele fez algo que eu não esperava.
Inclinou levemente a cabeça e me deu um selinho, rápido, leve, completamente sem segundas intenções, antes de se afastar com aquela naturalidade de quem cumprimentou alguém na rua.
Eu fiquei com os olhos arregalados.
Ele já estava saindo do carro.
Contornando pelo capô com aquela passada longa e tranquila de quem tem dois metros de pernas e nenhuma intenção de pegar leve naquele jogo. Chegou do meu lado, abriu a porta, estendeu a mão.
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