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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 290

Felipe

Eu não devia ter vindo.

Continuava sendo a conclusão mais lógica possível e eu continuava ignorando-a, para não ver a felicidade estampada em seus olhos.

No elevador panorâmico, quando subimos, o Luciano tinha colocado o braço ao redor dos ombros da Aelyn daquele jeito... daquele jeito casual, como todo casal faz quando está em um espaço pequeno e ela tinha encostado levemente nele como se fosse natural, como se fosse a posição certa, e eu tinha ficado dois passos atrás fingindo olhar para o shopping que se abria lá embaixo enquanto na verdade eu não via absolutamente nada.

Só via aquilo.

Só via o braço dele.

E o jeito que ela encostava.

E o sorriso que ela tinha dado antes, no carro, aquele sorriso específico que eu conhecia desde que ela tinha seis anos e que eu sabia de cor como alguém sabe de cor uma música que ouviu vezes demais, aquele sorriso que ela dava quando estava genuinamente bem.

Eu tinha visto aquele sorriso direcionado para mim centenas de vezes.

Preferia assim.

Mas essa era uma preferência que eu não tinha direito de ter, e eu sabia disso, e mesmo assim estava aqui, no shopping, num cinema, a dois metros de um homem que eu havia conhecido há menos de uma hora e que eu já queria que fosse antipático com uma urgência que era completamente ridícula.

O problema era que ele não era antipático.

Era atencioso. Era engraçado quando precisava e quieto quando precisava. Abria a porta. Ouvia quando ela falava. E olhava para ela com aquele olhar de quem está prestando atenção de verdade, não a atenção performática de quem quer causar impressão, ele realmente olhava para ela quando ela falava.

Eu odiava isso.

Odiava quanto isso me incomodava.

Odiava mais ainda não conseguir responder à pergunta óbvia: por quê?

Por que ver ela com alguém tão bom me incomodava de um jeito que não cabia dentro do que eu tinha decidido que sentia? Por que saber que tinha um cara cuidando dela, prestando atenção nela, fazendo ela sorrir daquele jeito, era a coisa mais irritante que eu tinha experimentado em anos? Por que o sorriso que já tinha sido meu, que eu tinha guardado como se fosse meu, como se eu tivesse algum direito sobre ele, me perturbava tanto?

Quatro anos atrás.

O pensamento chegou sem aviso, como chegava sempre que eu deixava a guarda baixar.

A virada do ano. A Aelyn com aquele vestido que eu tinha tentado não notar. O champanhe. E ela se aproximando com aquela intenção que estava escrita em cada detalhe, no jeito que tinha chegado perto, no jeito que tinha olhado, naquela fração de segundo antes de eu entender o que estava acontecendo.

E eu tinha recuado.

Não com crueldade, eu nunca teria conseguido ser cruel com ela, não era uma opção que existia. Mas tinha recuado, gentil e devastador, aquele desvio que disse tudo sem dizer nada.

A melhor decisão que eu já tinha tomado. Ou a pior.

As duas ao mesmo tempo.

Melhor porque ela tinha bebido, porque não seria justo, porque havia uma lista enorme de razões pelas quais aquele não era o momento certo e eu as conhecia todas de cor.

Pior porque desde então eu perfi algo essencial nela. Agora ela me trata como se pisasse em ovos. Nós dois fizemos isso. Eu não queria que ela me beijasse sem estar sã, mas ao mesmo tempo, eu acabei quebrando algo ali sem querer.

Merda.

O que eu estava fazendo ali?

Eu devia ter dito não quando a Sophia me contou que ela ia trazer alguém. Devia ter ficado no escritório com os processos e o café frio e a vida previsível que eu tinha construído exatamente para não ter que lidar com esse tipo de coisa.

Mas eu queria saber.

Essa era a verdade que não tinha saída.

Ela nunca tinha apresentado ninguém. Em anos, em todos os anos que eu podia lembrar, não havia uma única pessoa que ela tivesse trazido para o círculo da família, não havia um nome que eu tivesse ouvido de forma que importasse. E eu tinha guardado isso em algum lugar por que era importante para mim. Não havia ninguém na vida dela que fosse bom o suficiente para entrar... mas agora...

O Lucinao apareceu.

E de repente eu precisava entender o que ele tinha que os outros não tinham.

O que ele tinha que eu não tinha.

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